sábado, 18 de julho de 2015

Delicadezas


Acolhida pelos gigantes Alaíde Costa e Gonzaga Leal. Um show cujo nome não podia ser mais apropriado: Porcelana. Delicado, requintado, comovente. De Villa Lobos a Capiba, passando por Vinícius de Moraes (em parceria com Alaíde), Caetano Veloso, Hermínio Bello de Carvalho e outros de valor, um espetáculo absolutamente feliz. Gratidão também por participar desse momento ao lado de Maurício Cezar, Adilson Bandeira, Tomás Melo e Cláudio Moura. Este último, com sua divina viola, me acompanhou em Os Rios Turvos, homenagem à escritora Luzilá Gonçalves.
Aconteceu nesta quinta, 16 de julho, no Festival de Inverno de Garanhuns. Os registros carinhosos são da minha amada preciosa Lilli Rocha.

Cláudio, sua sensibilidade brinca com as cordas. Brincar carrega sempre o melhor sentido.

Flutuando nos Rios Turvos de Luzilá.

Neste momento o palco é todo Itamaracá, a ilha da pedra que canta.

"Se você não me queria
Não devia me procurar
Não devia me iludir
Nem deixar eu me apaixonar"

O abraço em cena não é diferente do que ele me dá na vida pelo menos duas vezes por semana. Ele me ensina, me expande. Dos bens preciosos que o teatro me trouxe. Nem fama, nem riqueza material. Além. Muito além.

Ela é Alaíde Costa. Ele é Gonzaga Leal. Não posso estar senão feliz.

Cláudio, Maurício, Alaíde, Gonzaga, Bandeira, Tomás, eu e o público. Numa noite de calor, apesar do frio de Garanhuns.

A escritora Luzilá Gonçalves. Sua felicidade faz a minha.

Os Rios Turvos nos abraçam, Luzilá



quarta-feira, 15 de julho de 2015

Porcelana


Emocionada de homenagear a escritora Luzilá Gonçalves, através da sua obra Os Rios Turvos, no show dessas duas grandes criaturas. Grandes em talento, generosidade, delicadeza, inteligência e boníssimo humor. Alaíde Costa e Gonzaga Leal, fina PORCELANA.

É amanhã, 16 de julho de 2015, na abertura do Festival de Inverno de Garanhuns.


E ainda ter a viola do Cláudio Moura me acompanhado em cena. É muita alegria.



domingo, 28 de junho de 2015

Tendré



Eu ando sem fala. Pra não perder de vez o hábito de tirar o pó deste lugar, um ctrl c + ctrl v e, diga o Fito por mim.
Besos salados.

Ceronha




terça-feira, 19 de maio de 2015

BÚSQUEDA


O texto abaixo foi escrito em 23 de abril deste ano, em Montevideo. Tal e qual a Despedida de Galeano, foi partilhado com os amigos que acompanhavam pelo facebook as minhas buscas. Pelo mesmo motivo está agora salvo aqui.

Procurando Delmira

 
O mausoléu que guarda os restos mortais de Delmira Agustini, no Cementerio Central de Montevideo.

Vim a Montevideo investigar um crime passional ocorrido há pouco mais 100 anos. Enrique Job Reyes matou a sua esposa, a poetisa Delmira Agustini, no dia 06 de julho de 1914.

No meio de tantas informações, cometi um descuido precioso. Anotei errado o endereço da família Agustini. Em vez de San José 1186, escrevi 1126 como sendo o número da casa em que viveu a poetisa Delmira e sua família. Então me surpreendi ao chegar ao número errado e encontrar justamente uma delegacia que trata da violência doméstica. Fui muito bem recebida aí e, é claro, ninguém poderia saber daquilo que meu engano produziu. Uma delegacia? E para esse fim? Achei que, se não era um propósito, também não podia ser uma simples coincidência, mas uma chamada do Universo, que anda sempre a conspirar. 

A delegacia.

Ainda enganada, caminhei da suposta "vivienda" dos Agustini até a Andes 1206, endereço do assassinato. Fiz o que eu acreditava ser o mesmo trajeto que Delmira fez naquela tarde de julho de 1914, para encontrar a morte pelas mãos do homem que dizia amá-la.

Caminhando pela Rua Andes.

Ali reencontrei o pequeno e descuidado rosal invisível nesta Montevideo de um século depois. 
Reparem que um transeunte pisa indiferente sobre a pedra com uma inscrição em homenagem a Delmira. 




Me ajoelho e rezo por todas a mulheres que tiveram o mesmo e indigno fim.


Depois, revendo os documentos, verifico o endereço certo e vou ao lugar que hoje é um pequeno edifício que foge da arquitetura característica de Montevideo, onde funciona uma joalheria. 


O endereço certo.

Mônica, a atendente, um pouco ressabiada a princípio, acabou por me deixar entrar e revelou que por trás da fachada atual, o lugar ainda guarda vestígios da velha casa. Permitiu-me ver o estreito e longo corredor que esta porta fechada esconde. Não pude fotografar por dentro, mas a imagem do "pasillo angosto, largo y de piso rojo" nunca me sairá da memória. 


A porta que esconde o inesquecível corredor.

Das coisas que o engano me revelou, o fato de que hoje, entre o refúgio de Delmira e a casa de Enrique, onde tiveram muitos encontros amorosos mesmo depois da separação, existe hoje uma delegacia que pretende proteger as mulheres de crimes como esse. Segunda é que fui muito bem tratada pelos homens que trabalham ali, especialmente pelo Julio. E outra, é que ali na delegacia descobri o endereço da casa onde Delmira e Enrique moraram, no bairro do Prado.


No mais, reparem que nestas andanças por Montevideo, até os muros me falam de paixão. Porque sim, o Universo conspira.



Ceronha Pontes
Montevideo-Uruguay
23 de abril de 2015

P.S.: A investigação resultará num espetáculo teatral de minha autoria. Por enquanto o chamo de LA NOVIA.


domingo, 17 de maio de 2015

SUBMERSA


Save me, save me, save me! 
Clama o Freddie Mercury pela casa, tentando arrancar Estela desse estado de inércia. Ora, não se gaste à toa, meu rapaz.
Por vezes admirei a conduta de Estela, não nego. Sua firmeza, sua resignação. Amadurecida depois de cada tempestade. Sábia, eu pensava. Engano terrível. A verdade é que ela padece de excesso de razão. Apostou que se arranharia menos assim e terminou acumulando enfermidades de tanto negar-se a si. Feriu-se a fundo com a própria covardia.
Percebo que escrevi a palavra terminou. Queria ter motivos para apagá-la, mas não vou botar panos quentes agora, quando sei que a mão estendida para fora do trem não voltará a alcançar Estela. O trem que ela deixou ir, a vida inteira deixou ir, rompeu com os trilhos, atirou-se no precipício, foi tragado pelas águas, perdeu-se num oceano intransponível. 
Agora eu encaro este gigante azul com a loucura que faltou a Estela. Sinto as pancadas do mar no meu peito igualmente revolto e, compadecida, choro por ela. Mas choro tanto e tanto, que necessito teu canto, Freddie. Continue. Por mim. Save me, save me, save me. I can't face this life alone.

Ceronha Pontes


Despedida de Galeano


O texto abaixo foi escrito em 15 de abril deste ano e direcionado aos amigos que frequentam o facebook. Entretanto o blog, embora infinitamente menos visitado, guarda melhor as memórias. Por isso vim, ainda que tarde. salvá-lo aqui.


Palacio Legislativo

Despedida de Galeano

Quando estávamos chegando avistamos uma moça que carregava uma pequena bandeira da Venezuela. Maribel lamentou não ter trazido uma do México (seu país), enquanto Eros e eu pensamos que seria justo termos uma do Brasil. Sem bandeiras, mas com os corações latino-americanos batendo forte no peito, entramos.

Maribel, Eros y yo.

Pensei que me perderia numa multidão isolada por cordões. É que às vezes esqueço que o Uruguai é um país pequeno, com uma população pequena e traz, portanto, uma imagem diferente da que estou habituada para ilustrar multidão. Mas, e os cordões de isolamento? E o ostensivo esquema de segurança? E as autoridades reservadas e distantes? E a família “protegida” do nosso assédio? Sim, estavam os guardas muito bem paramentados e até existiam alguns cordões organizadores de fila, caso fosse necessário, mas a verdade é que sendo o velório do nosso Eduardo Galeano, não se pensou em separá-lo de nós. Estávamos todos misturados no mesmo e imenso Salón de los Pasos Perdidos del Palacio Legislativo e clima era de absoluta tranquilidade e gratidão.
Ali estava o atual presidente, Tabaré Vásques e sua pequena comitiva. Teve a elegância de não se demorar mais que uns vinte minutos. E não que isto representasse qualquer impedimento. Como eu disse, estávamos todos no mesmo plano, no mesmo salão, com o mesmo sentimento. A circulação era livre como Galeano nos encorajou a ser. Em verdade entendemos como necessário permitir ao Presidente uma breve conversa com a família, é claro. Trocadas as gentilezas, Tabaré se foi e restamos nós: familiares, amigos, leitores, admiradores... Os curiosos não encontrariam razão para ficar, pois tudo transcorria sem qualquer afetação, apesar do luxo do Palácio.

 
Velatório.

Muitas flores vindas de várias instituições, grupos e mesmo cidadãos comuns. Parei por acaso ao lado das que foram enviadas pelo Teatro del Galpón. Eros percebeu e brincou, dizendo que eu havia me colocado do lado certo.  Maribel se alegrou quando percebeu uma bandeira do México aos pés do caixão. Não leiam como uma desonra o fato de a bandeira estar no chão. Provavelmente algum mexicano agradecido a tinha posto e o protocolo, como já disse, não era uma obsessão. Pediu que Eros fotografasse a singela homenagem dos seus. Ele o fez e seguiu registrando outras delicadezas.  
Emoção quando Maribel me chamou a atenção para a presença da senadora Lucía Topolansky, esposa do ex-presidente Pepe Mujica, pela qual tenho imensa admiração. Estávamos, como disse, todos muito próximos, todos misturados. Eros, muito menos tímido que eu, aproveitou que Lucía lhe sorriu e foi conversar com ela. Eles dois com suas quatro mãos abraçadas. Ele lamentando a perda, ela celebrando o fato de que ele trabalhou até o último momento. Lembrou a Eros a importância de uma mediação recente que Galeano teria feito entre Brasil e Venezuela, para garantir a cordialidade entre os dois. E eu confesso que não estou inteirada do assunto. Mais tarde Eros a chamaria de terna guerrilheira. Eu achei bonito.

 
Lucía Topolansky (a segunda senhora sentada de cabelos e blusa também branca, com paletó azu).

Sim meu queridos, temos registros nossos do ataúde que guardava Galeano, mas não me sinto nem um pouco à vontade para postar. Partilho essas fotos mais discretas porque sei que muitos dos meus amigos gostariam de ter estado ali e prestado sua homenagem. Saibam que em todos os íntimos agradecimentos que fiz nessa despedida, pensei em vocês. Com amor e uma esperança que fraqueja, e muito, mas sempre se refaz.
Um abraço bom.
Ceronha



terça-feira, 12 de maio de 2015

Recado


Querido blog, me perdoe o abandono, mas é que eu saí por aí estudando. Fui bater em Montevideo perseguindo a Delmira Agustini, acredita? Pois nos aguarde. Olhe, tanta coisa se deu que não sei com quais palavras contá-las. Na vinda ainda passei por Belém do Pará, emprestando o "cavalo" à nossa Camille Claudel e foi bom à beça. Mas agora cheguei no nosso Recife e vim no "metrô da saudade", com meu coração Alceu. Passei pra te fazer um afago e te deixo com o meu queridíssimo Gonzaga Leal, trazendo este recado Valenciano, com um arranjo do Cláudio Moura e sua viola que me dói. Escuta aí.




sábado, 21 de fevereiro de 2015

IMORAIS II


Naked Portrait (Lucien freud)

No quarto do hotel, ao calor da lareira, pequenos espasmos ainda. Restos de um sonho. Era só a metade da viagem, mas o outro mundo já se impunha. Concreto. De uma urgência autoritária.  Aaron pensou em Norma. Desejou que ela estivesse ali. Ele compraria uma garrafa de vinho e conversariam sobre o que só eles alcançam, como se houvesse uma língua só deles. E há. Eu mesma não compreendo tudo o que dizem, por mais participação que me deem. 
No dia anterior Norma enchia o abraço de Aaron, aberta aos seus carinhos, aos seus delírios. Partilhava do seu gozo com uma alegria que ele não haveria de esquecer. De repente, tudo tão impalpável.
Agora ele finalmente chegou em casa, que é muito, muito longe. Havia perdido as chaves, mas já conseguiu entrar, se instalar, se reconhecer na paisagem. Paisagem bem diferente daquela de que sofrem neste momento os olhos de Norma. Eu soube dela desalinhada pelas ruas do seu lugar, em estado de recusa do que lhe sobrou ali. Mas conheço seus poderes. Pude já presenciar sua recuperação em situações de improvável cura. Como não saberia lidar com as cicatrizes da alegria? Sei que vai caminhar muito, às vezes correr em disparada, enfrentar as curvas com tanta velocidade que há de desmaiar de tontura. Mas firmará seu passo novamente nas linhas tortas que elege. 
Eu os espero sob o frio no alto de uma ladeira. Ou numa canção. Assim seja.

Ceronha Pontes
Recife-PE, 21 de Fevereiro de 2015.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

IMORAIS


"Mal é que a moral nos reja,
Bom é que ninguém nos veja;
Entre isso fica viver ."
(Fernando Pessoa)

Selfie Portrait (Lucien Freud)

Eu não quero morrer! Isto explica a porta aberta. Entra, homem. Que tanto tu temes? Ou julgas?
Minha sutileza não te basta? Preferirias uma mulher atormentada pelos excessos da moral? 
Não pratico o fingimento. Pratico a poesia e isso é outro universo. Onde o tempo não é perdido com falsa recusa, mas estendido no embelezamento do caminho. 
Vem. Com os teus medos, não me importo. Teu passo inseguro, teus movimentos mínimos. Vem com teu sorriso tímido, com teu fio de voz que te revela um gigante e tu nem desconfias. Tu também não mentes, e é por isso que te escolho. 
Eu te escolho, tu me escolhes. Nada mais.

Ceronha Pontes
Recife-PE, 17 de fevereiro de 2015

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A Mulher e os Cães


"Chorei porque daqui por diante chorarei menos.Chorei porque perdi minha dor e ainda não estou acostumada à ausência dela".
(Anaïs Nin - Henry & June)

Triple Portrait (Lucien Freud)

Ora, é preciso reinstaurar o gozo! Pensei alto. O mundo quase ouviu. Depois fiquei ali, quieta, abandonada entre os cães. 
Certa vez um amigo me confidenciou que esteve no fundo de um poço tão medonho que os ratos, cheios de intimidade, o seguiam pelos becos. Lembrei disso quando me vi acariciando os pulguentos. Não gosto deles e, no entanto, restamos nós.
Chorei de novo. Solucei saudades de quando fui aquela que tu adoravas. Quanto poder conferi a ti!
Tu não virás me buscar, é definitivo. Nem eu tentarei. E isto eu gostaria que tu soubesses. Todas as vezes que a vida me puser diante de ti, antes terei esgotado todos os desvios. 
Não suporto a feiura que assumi aos teus olhos. Não conheci mulher tão feia quanto esta que vejo refletida neles quando se voltam para mim. Isto me enche de vergonha do mundo todo, como se todos me enxergassem assim. 
É preciso reinstaurar o gozo! Penso novamente e aos berros. Os cães respondem cúmplices. Uivos ecoam dentro da noite. Então percebo o equívoco. Nunca fui capaz. Desde muito antes de ti. Desde sempre. Tive tanto medo, tive tanta culpa, que nunca fui capaz. Em verdade é preciso instaurá-lo. Contra toda negação estabelecida. É direito. É mesmo um dever. Pago com a fogueira, mas  devo cumprir. Decido.
Fogos explodem no céu. É carnaval. Os cães fogem velozes e me arrastam com eles. Não sei para onde me levam, mas sinto o vento redesenhando meu rosto.

Ceronha Pontes
Recife-Pe
13 de fevereiro de 2015


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Homem Nu



Davi and Eli (Lucien Freud)


Às vezes penso em te ligar, mandar um oi, saber como você tá. Mas aí aparece aquela curtida rara dele na tua foto, e eu sei que você fica cega, você fica louca. Você, cheia de esperança por causa de uma curtida, perde a cabeça e vai. Se arrebentando em direção contrária à minha rua. Deserta de ti.
Você diz que ninguém te fez tão feliz quanto ele. A promessa era linda, reconheço. Lhe seguir aonde você fosse... Ainda ouço você, orgulhosa, repetindo as palavras dele.
Apesar de te ter perdido, nem lamento não ter podido nunca te mentir assim. Meu caminho é claro e me exige, qualquer um vê. Nada neste mundo me faria prometer.
Me entristece a sua felicidade em se livrar de mim, me desamar como quem se cura de um câncer, celebrar e agradecer pelo nosso desencontro. Frustrei você porque não colori sua cabecinha, não vesti a fantasia. Eu nunca visto. Sou cru. Ando nu, em pleno carnaval. E é assim que eu amo você.

Ceronha Pontes


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Velhos amigos


Caríssimo Nikolaj,

Fiquei muito emocionado com tua última carta. Longa, detendo-se em questão da maior importância para mim. Um cuidado que me comoveu. Obrigado.
Tuas considerações eu respeito, acredites, mas não concordo contigo em tudo.  Em verdade me preocupas. Parece-me que desististe. Entendo que velhos como nós, que já viveram tanto e tão intensamente, tenhamos aprendido qualquer coisa sobre a insustentabilidade dos prazeres e que, por fim, a vida está muito mais a contemplar outros estados. Mas não penso que seja digno aceitar tanta demora no sofrimento. Pareceu-me que tu me sugerias isto ao dizeres para que eu me conformasse. Há situações em que podemos sim, e devemos: agir, transformar. Das escolhas que temos, poucas que sejam, não podemos nos furtar.
Se a criatura está doente, é preciso tratar. E ponto. Acho estranho que todos os outros doentes desejem e lutem pela cura, enquanto os doentes do espírito vivem gozando com a própria dor. E tu sabes o quão avariado é o meu espírito, de modo que falo por um conhecimento de causa que tu mesmo me ajudaste a conquistar.  É justo, admito, se é da escolha do indivíduo viver atormentado assim, que viva. Desde que não afunde, não envolva, não contamine, não adoeça outras pessoas. Será possível?
Fúria, medo, desdém, posse, inveja. Ah, esta última é de todos o maior veneno agindo na questão que te coloquei.  Inveja da liberdade, da segurança, da capacidade de criação e superação do espírito próximo. Aí a criatura doente se empenha em diminuir, destruir o que é do outro, para não estar só na sua pequenez.  Conformar-me em ser tratado assim? Não posso Nikolaj, aceitar a mesquinharia sem me espantar.
Naquilo que tens razão, estou sim, doente de compaixão. Deve ser. Porque ainda brigo para ver brilhar de novo o olho apagado que tanto amei. E que vem me apagando o olhar dia a dia. Responsabilíssimo, tu bem sabes, não jogo tudo fora por um colorido fugaz. Disso eu nunca fui capaz. Sei que sofro menos de ver findar o carnaval, que ver poluído o lago denso onde repousei. Choro a quarta-feira de cinzas, sabendo que não demoro mesmo a descartar a fantasia. Mas conformar-me em ver meu lago sujo não me parece o certo. Faço motim, meu caro. Não fujo à luta. A diferença agora, enquanto sofro pelejando para limpar estas águas, é que não me culparei mais pelas pequenas alegrias a mim tão generosamente destinadas. As Claras Luas que mais perecem sóis brilhando no meu Céu. Os breves carnavais recém-citados que atravessam a minha luta. A alegria é um direito.
Nikolaj, sobre a minha declaração de amor de outro dia, perdoe os excessos deste velho que não lhe queria constranger. Amo desavergonhadamente os amigos, que são um tesouro na minha vida, embora eu conviva cada vez menos. Às vezes penso que te assombra o amor. Qual seja. Pensei sobre isso de novo quando li o teu “conforme-se”.
Acompanha a carta um cubano daqueles. Que ele te traga boas ideias.

Sou o teu velho e gagá,

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Sertão



Amigo Sidney, ainda sobre tua partida...
Pois tu foste criatura tão danada de incrível, que mobilizaste um mundaréu de gente desde ontem, reunida em nome do amor, a celebrar a oportunidade cara, meu bem, de te ter nas nossas vidas. Entre tantas mensagens e ligações transbordantes de afeto, o Armando me enviou este vídeo de presente. Eu chorei ouvindo, mas não pude deixar de rir também, lembrando de quando a gente fazia bem o que se propunha, fosse eu, você ou o Dan, você vibrando: "Dá-lhe, Sertão Central!".
Viva Tamboril e o Monsenhor Tabosa, meu filho. E o Armandinho e a Maria Betânia. Evoé!





P.S.: Ah, e não se preocupe que em algum momento a gente vai parar de fazer postagens melosas, seja no facebook ou em blogs empoeirados. Te esquecer não prometemos, porque você não colaborou pra isso. Hahahahaha...

sábado, 24 de janeiro de 2015

Passo a passo


Não serão menos verdadeiras porque efêmeras. Mereça sim, Luciana, cada alegria breve. Tuas pernas pesam. Pesarão cada vez mais. Pesarão sem fim. Precisarás de alegria para mover-se tristeza afora.

Ceronha Pontes
24/01/2015
Recife-PE

extra


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Par-ti-da


Destituída da função de Última Coca-Cola do Deserto, Ariela não concordou em assumir o cargo de Mosca na Sopa, ou mesmo de Pedra no Sapato. Recusaria ainda o de Prato Cuspido, certa de que o próximo passo do declínio seria o de Cachorro Morto, entregue aos chutes de quem seja. Sem talento algum para o papel de Persona Non Grata, partiu por conta própria antes que lhe decretassem Carta Fora do Baralho.
Entretanto, consta que por onde anda, ainda está de luto.

Ceronha Pontes
21 de janeiro de 2015
Recife-PE

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Esperança


Ela já nem amarela. Ela já não há.
Ceronha Pontes
20 de janeiro de 2015
Ainda no Recife-PE

Outros:
AMARELA
AMARELA II

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Sacudindo a poeira...



Querido diário, eu tenho tido vontade de te escrever. Ensaiei voltar ao Baile inúmeras vezes e finalizar a série dançando com Tessa. Revi a película de onde nos conhecemos e chorei tudo novamente, mas, nenhuma linha sequer, ocupada que estou com uma escrita "profissa", meu caro. Dramaturgia, se diz. Sobre isso te adianto que em breve visitarei o Cemitério Central de Montevideo. Não para encontrar a morte, mas para resgatar La Novia. Maiores detalhes adiante, contenha-se.
De outros escritos vim partilhar contigo, pra tirar um pouco do teu mofo, um pedaço de conversa do meu próximo espetáculo, Concerto de Assobios, em companhia do cantor (ele prefere se dizer intérprete) Gonzaga Leal, em homenagem ao poeta Manoel de Barros, a quem as "borboletas imensam". Em verdade trata-se de um musical idealizado pelo queridíssimo Gonzaga e dirigido pelo André Brasileiro, recheado de cantigas de trabalho e  conversas em idioleto manoelês adaptado por mim (pelo menos eu tento), além de nossas próprias memórias, para onde Manoel inevitavelmente nos remete. Segue uma das minhas que deve anteceder um cântico de lavadeiras.


(...)


Ceronha- Ê, Gonzaga, nos tempos de eu bem menininha era tudo tão diferente. Caixa d’água mal havia, as torneiras eram poucas. Era mesmo em pode de barro que a gente fazia render o milagre nos tempos da seca. Eu me lembro da areia do rio seca, dourada. Ali perto da barragem Pedra e Cal, a água que não caía do céu, brotava agora da terra, de um milagre chamado cacimba. As cacimbas, Seo Gonzaga, jorrando água limpinha, pra mó de banhar os meninos, pra cozinhar o feijão, pra lavar os terém, pra lavar roupa também. Pra lavar roupa Dona Bentinha dizia: “Essa água alveeeeja”. Um sem fim de lavadeiras sobre a areia dourada do rio. Tondeca, menino, fazendo sabão de potassa é como ninguém. Agorinha mesmo sou capaz de sentir o cheiro da roupa quarando. Cante, Seo Gonzaga. Pra mó de homenagear Dona Bentinha, Dona Dinoca, Tia Calô, Dona Chiquinha Pindoba, Dona Chiquinha de Seo Herculano, Dona Maria e as lavadeiras tudim do meu Tamboril. Cante, Hômi, demore não. 
(Trecho de Concerto de Assobios, por Ceronha Pontes)