quarta-feira, 16 de agosto de 2017

PICADOR DE GELO




“Minha arma é o pincel, a sua é o picador de gelo”, disse a mulher ao “doutor”, referindo-se à sessão de tortura promovida por este, contra um indefeso paciente psiquiátrico e que ela, chocada, num auditório lotado pelas “autoridades” no ramo, presenciou. A mulher do pincel não era artista, senhoras e senhores, embora vivesse cercada por estes. Os artistas muito mais a reconheciam, admiravam e se aliavam, do que aqueles seus colegas inchados de soberba , que cobiçavam fama praticando experiências das mais cruéis, usando como cobaias os loucos abandonados na instituição. Dito isto, pode lhes parecer estranha a escolha por esse título. Explico: nesse dia de hoje, em que recebi tanto da vida, decidi-me por converter dor em ternura, porque eu posso. Céus, EU POSSO! E juro por Antonin Artaud, por Arthur Bispo do Rosário, por Jean Genet, juro por minha adorada Mademoiselle Claudel e, sobretudo, juro por Adelina, por Fernando, por Emydio, por Rafael e ainda por toda uma população de anônimos invisíveis para a sociedade, juro que quando grito EU POSSO, estou num raro momento pleno da mais legítima humildade e gratidão. Converter dor em ternura, ao menos por hoje.
A essa altura, mesmo aquelas pessoas distantes desse universo e que ora me leem, já entenderam que a mulher do pincel é médica psiquiatra. Ora, pois achei justo anuncia-la como MULHER. Agora lhes digo que era uma mulher comunista, senhoras e senhores. Acrescento ainda que a referida era mulher nordestina. Sim, uma brasileira miudinha nascida nas Alagoas. E não duvido que até hoje cause espanto o fato dessa criatura ter de tal forma humanizado o tratamento das doenças mentais, que não foi possível fechar os olhos para essa revolução. Seu nome? NISE DA SILVEIRA. N-I-S-E. Até Jung aprendeu. Não sem antes supor que se tratasse de um “doutor” Silveira, é claro. Ah, Jung!
Pois bem, hoje, no encontro CINEMA NO HOSPITAL- Reflexões e Projeções sobre a Vida, projeto sensivelmente coordenado pela Isabela Cribari , abrigado no Hospital Agamenon Magalhães, aqui no Recife, foi exibido o filme Nise – O Coração da Loucura, de Roberto Berliner, com memorável atuação de Glória Pires e um elenco absolutamente brilhante, no qual a presença do meu amigo Cláudio Jaborandy no papel de Emydio, me comove e orgulha profundamente, não podia deixar de dizer. A seguir, uma fala do artista Gonzaga Leal que, por mérito inequívoco, conviveu e trabalhou ao lado de Nise no Hospital do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Antigo Hospital Pedro II que hoje leva o nome da médica. Ali também funciona o Museu de Imagens do Inconsciente, onde entrei pela primeira vez pelas mãos de um cliente, como Nise preferia chamar. Um louco diagnosticado e que não se importaria nem um pouco de ser apresentado como tal. Ele que entrou na minha vida através do meu espetáculo sobre Camille Claudel, na temporada do mesmo no Rio de Janeiro em 2013. À época era já uma preocupação das pessoas com quem conversei, algumas que trabalham desde quando o Setor de Terapia Ocupacional transformou-se numa referência, com relação à manutenção e destino do acervo do Museu. Diziam que desde a morte da Dra. Nise evaporou-se qualquer vontade política de preservá-lo. Essa informação dá a dimensão da luta de Nise contra todo o desprezo, deboche e resistência que sofreu principal e imperdoavelmente por parte dos seus colegas. Uns reacionários de vocação duvidosa. Depois de erguer tão magnífico trabalho ao lado de sua equipe, formada por “lunáticos” de outras áreas e que aceitaram tamanho salto no escuro, ainda assim a morte de Nise pôs em risco o projeto. No entanto, eles, quem sejam, os inimigos, eu digo, mesmo ameaçando a sobrevivência do acervo do museu, já não têm como deter Nise. Seu legado se espalha por meio de alguns profissionais de fé, dispostos a trabalhar com tamanha entrega, que se pode afirmar seguramente que sim, Nise vive!
Gonzaga Leal, sem os vícios acadêmicos, sem o ranço das convenções, falava alegremente de seu convívio com ela. Fluía responsável, mas despretensioso.  Ele afirma, numa clara referência a conhecido ditado, que por onde Nise passava brotavam flores. Tenho razões para crer que ele próprio possa ter florescido nessa passagem de Nise por sua vida. Porque Gonzaga tem perfume, sabe? E espinhos, não se engane. Podia, e eu até esperava, ter provocado mais. Mas tenho a impressão de que foi uma escolha pensada deter-se na poesia da convivência com aquele tamanho de mulher, visto que Nise tinha acabado de confrontar ela própria, através do filme, todo um universo de atuação quase que inteiramente ocupado por homens desinteressados pelo próximo e atentos aos próprios interesses, usando descaradamente do desamparo dos internos para suas experiências.
Claro que eu já conhecia a película. De tal modo que cenas encurtadas ou suprimidas não passaram despercebidas. O conteúdo e expressão do discurso de Gonzaga também não são um mistério para mim e isso não quer dizer que ele não se renove ou não se repense, mas que tenho o privilégio de lhe acompanhar o brotar e apurar das ideias dia a dia. E hoje, mesmo sem estar diante de uma novidade, propriamente, fui atravessada em outra parte de meu espírito que, por puro instinto, também se quer em constante movimento  ladeira “arriba”. Sonho é.
Saí dali sem me sentir no direito de me desencorajar para a vida outra vez, embora eu saiba que ainda não tenho força para tanto. Saí com uma vontade de vida do tamanho da minha vontade de morte. Essa fome de viver me acometeu ao me colocar diante de uma mulher cuja grandeza se mostrava mais pela sua postura diante do próprio não saber. Nise não sabia. Depois da prisão, por sua simpatia pelas ideias marxistas, foi atirada naquele monturo de hospital apenas para bater ponto, prescrever uns “lelés” e passar o tempo. Aquilo era a visão do inferno. Diante daquele depósito carregado de trastes sem vida ou função, atendeu aos apelos da sua intuição ainda cautelosa frente aos caos, arregaçou as mangas literalmente e fez ela própria a faxina.  Galpão limpo, vieram os loucos. Não lhe aceitaram o convite para sentar, o que mais uma vez a deixou sem saber. E, em não sabendo, não fez outra coisa senão observá-los com firme propósito de descobrir em cada um os seus canais próprios de expressão. Nunca pretendeu curá-los, por razão de que a cura não existe e nisso ela de fato acreditava, contrariando mais uma vez os colegas. Só queria que os loucos pudessem encontrar algum conforto em ser o que são. Ah, como é bonito ver alguém desejar ao outro nada menos do que deseja para si mesmo!
Nise estava aberta. Não se interessava por condecorações. Aceitava ideias. Criteriosa, se disponibilizava para as experiências que lhe propunham os outros. A ideia, por exemplo, de um ateliê de pintura no STO nem foi da médica, porque, repito, ela não sabia ainda o caminho. Mas como quem não tem nada, nada pode perder, criou-se o ateliê pelo empenho do artista plástico Almir Mavignier e a sabedoria de Nise estava mais uma vez e sempre em observar. Fascinante a sua percepção das imagens produzidas pelos loucos e visível a evolução destes a cada pincelada, através das quais se impunha naturalmente uma lógica e uma forma de se fazerem entender. Uma vez compreendidos, seguramente mais acolhidos. Minhas senhoras e meus senhores, olhar para o outro, desejoso de aprendê-lo e de com ele se integrar, demanda. Quando aponto o “não saber” de Nise frente àquilo que desdenhosamente colocaram para ela na instituição, quero, de joelhos, afirmar o seu GÊNIO. Uma prova dessa genialidade, aliás, e que deixaria o seu segmento mais uma vez revoltado: a descoberta da importância dos animais no processo  terapêutico. O despertar e florescer dos afetos nessa relação naturalmente pura entre bicho e louco não deixariam de promover a desconfiança e a fúria daqueles médicos tão destituídos de empatia, habituados a procedimentos destrutivos. Certa vez Nise afirmou a um colega que os cães trazidos por ela e sua equipe para o hospital eram mais limpos que os pacientes daquele e que não seriam retirados dali porque funcionavam como co-terapeutas. Foi demasiada afronta para o tal cientista. Foi tão insuportável que a ele e aos seus comparsas não restou outra saída senão vingar-se, assassinando os cães. Terrível!
Teria o resto de minha vida para discorrer sobre o filme em seus mínimos detalhes, para fazer conexões entre tudo que nesse encontro vivemos, com minha própria experiência pelos hospitais psiquiátricos, tanto na condição de artista pesquisadora como de paciente. Mas já me exibi o bastante, não? Peço ainda e só que me permitam dizer de uma cena para mim a mais comovente e esclarecedora do caráter daquela mulher rara. A dantesca imagem dos cães mortos no pátio não poderia deixar de promover o surto generalizado entre os pacientes. Era tão horrorosa aquela visão, que ninguém, mesmo não sendo um louco daqueles tão beneficiados na convivência com os animais, poderia manter-se inabalável. Um dos clientes reagiu com a mesma e tamanha violência que acabara de sofrer. Não havia controle possível para a sua dor naquele momento. Os senhores cientistas então o atiraram de volta à mesma e repugnante cela onde ele vivia abandoado antes da chegada da Dra. Nise ao hospital. A cena que mais me emociona acontece a seguir. Nise invade a sala dos médicos como um raio e se põe ajoelhada, implorando que libertem o paciente, que não o machuquem, que o devolvam ao STO e permitam que ele siga no tratamento com ela. Aquela mulher plena de dignidade, de verdade, de compromisso com os seus, ajoelhada, implorando. Foi quando a pequena Nise mais se mostrou a gigante que foi, que é e será sempre. Não é todo mundo capaz de se render com tanta dignidade. Claro que ela não se ajoelhava para o colega, embora fosse diante dele. Ajoelhava-se para e pelo seu paciente. Não pode haver orgulho diante de uma vida ameaçada. Os justos e bons mais honrados estarão quando curvados  ao dever, ao juramento: SALVAR VIDAS.
Armada com pincel, cinzel, martelete ou picador de gelo, não importa, Nise me quebrou sempre as resistências, os preconceitos, os medos, a intolerância, a ignorância, a inveja, e outras incapacidades e mazelas das quais, não sem constrangimento, confesso que padeço. Mas compreendam que precisava me derramar aqui de alguma forma, tomada que fui pela verdadeira gratidão. Esta é destituída de obrigação e culpa. A verdadeira gratidão gera a boníssima vontade de multiplicar o bem que recebemos. E eu recebi tanto naquela manhã , ao perceber maior a minha fome de vida, que a gratidão aqui transborda em palavras as mais amorosas de que sou capaz. Dor em ternura, persigo. Vamos dançar?

Ceronha Pontes
Recife, 14 de agosto de 2016.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

ALCOVA TAMBÉM É CAMPO DE BATALHA






Por esses dias ganhei da minha amiga Iara uma camiseta com a Rosa Luxemburgo estampada, comprada na lojinha do MST em São Paulo. Senti-me tão honrada com o presente. Sim, o movimento me afeta. Fiquei pensando nessas mulheres de luta que não se esquivam do front. Revisitei a história de Rosa e depois de ler algumas coisas, ai, me sinto obrigada a confessar que morri de vergonha de estar debruçada (em processo de criação) sobre a vida e obra de Delmira Agustini, uma garota de posses, que levou vida pacata e confortável naquela minha Montevideo querida no começo do século XX. Era como se, sobretudo depois de Claudel e tudo quanto ela representa, Rosa me alertasse para um suposto desperdício em aplicar minha energia criadora numa obra que diga de moçoila abastada que escrevia poesia, imaginem. CRISE. Quem nunca? Era como se Delmira desmerecesse de repente a minha compaixão, pois se o mundo está aí todo uma ferida aberta, eu não tenho então o direito de contar uma "historinha" de alcova. Como se o amor(insano, no caso) não merecesse atenção, não suscitasse revolta nem convocasse à transformação. Como se eu, num lapso, numa vertigem, abandonasse a compreensão do quão enorme, dura e longa é a inevitável luta que se impõe desde se nascer mulher. Alcova também é campo de batalha, Dona Ceronha. E nem toda batalha ali travada resultará na "petite mort". Há, aos montes, preocupantes montes, as que resultam em morte. Dura, definitiva e banhada de sangue. Morte. Destituída de poesia. 
Delmira, me perdoe a fraqueza. Me perdoem a fraqueza todas as mulheres violentadas e mortas pelo machismo. Atravesso esse momento de dúvida e chego aqui, do outro lado desse rio denso, certa de que Rosa lutaria ao nosso lado para que se faça justiça à memória dessa mulher, assassinada menos de um ano depois da cerimônia de casamento (ver foto), pelas mãos do homem que a tomou como esposa. Fazer-lhe justiça à memória é enterrar esse pensamento doente de que o "comportamento fora do comum" atribuído à agora morta e mais indefesa do que jamais, justifica o ato criminoso de Enrique Job Reyes.
Delmira Agustini, que os deuses todos do Olimpo me permitam ser canal para a tua dor, para denunciar a tamanha injustiça que sofreste. Que meu instrumento seja digno de tua poesia erótica, arrebatando corações e alimentando desejos para além do Rio de la Plata.
Parece que depois desse lapso recomeçou a chover dentro de mim. Chove muito. E eu não posso deixar de lembrar do Sérgio Sampaio, sofrido sábio, afirmando que "o maior dos temporais aduba o jardim".
Assim seja.
Ceronha Pontes
Recife, 18 de setembro de 2016
A moça lendo e a noiva, são a mesma: Delmira Agustini. Camille vai gostar de tê-la por perto, permitam-me a pretensão, nessa minha galeria.


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

PEIXE-BOI

(Para Ihasmin)
Adolescente ainda li o verso do Drummond como uma advertência:
"A vida não chega a ser breve".
Pois então digamos às pessoas o quanto elas são importantes para nós. Rapidamente toda essa grande grande coisa que a gente pensa que é se mistura à poeira do esquecimento e, de novo o Drummond:
"Amor é a descoberta de sentido no absurdo de existir".
Por que isso? É que fui despertada, caramba, justo hoje, por um Peixe-Boi imenso e colorido enfeitando a perna branquinha da minha enteada. Acompanhavam o bicho mensagens carinhosas e felizes de partilha, enfeitadas com coraçõezinhos cor de rosa.
Mais de vinte anos que ela me recebeu na sua vida e mesmo agora, com tudo reconfigurado (amorosamente reconfigurado, é bom lembrar), permitir-me um lugar nas suas alegrias é das coisas mais preciosas para mim. A certeza de que tudo que o amor quis de nós ele teve. Ele TEM. Assim, presente e profundo.
Agora fazem morada em nossa pele tatuagens aos pares. Ela soma quatro e eu duas. Dizem que número par de tatuagens dá azar. DUVIDO. Nada pode o azar contra a alegria e o amor que, de verdade sendo, não morre.
Eros e Cristina, minha gratidão eterna por trazerem esta criatura ao mundo e me permitirem um bonito lugar de madrasta nesse lance. E sim, eu estou molinha mesmo, me derramando e escorrendo sem trégua, mas não à toa. A vida dói mas não tenho o direito de duvidar que ela é boa se, por exemplo, vocês existem.
Com amor,
Cé.
P.S.: Ihas, acho que vou trocar a figura do caracol (ideia de terceira tatoo) por um Condor dos Andes. Faz mais sentido para essa eterna família que eu sempre vou sentir na pele.

Carta para Elliott


Dear Elliott,
Por aqui a mesma insanidade que tu, sábio, abandonaste. Por que insistimos? Eu não tenho uma resposta. Um vaivém absolutamente infrutífero sobre esta bola doida flutuante onde as conexões se quebram a todo instante. É o movimento desses tempos. Não digo que natural, porque natural para mim seria a empatia, mas é como acontece e nos enreda de um jeito ou de outro.
Não, eu ainda não me entendo com o Johnny Walker, mas se não funcionou contigo, por que comigo?
Mezinhas homeopáticas e agora os búzios. É. Recomendações de Nikolaj. Um lance com o santo de cabeça. Ah, Nikolaj sim, se entope desse veneno que tu te aplicavas, mas, como se sabe, não se move do fundo com aquele peso todo, a não ser para me escrever e é a única coisa que me comove no meio disso.
Pus você para tocar faz pouco. Não consegui ouvir por muito tempo. Sarah também veio de madrugada, mas a dispensei antes das 4.48 e sinto que foi o instinto agindo à revelia da minha incompreensão. Também no caso da sua canção. Precisava te dizer, porque fiquei me vendo desligando você e não me senti bem. Desligar, calar quem só me fez afago? Pareceu-me injusto e feio. Quando o fazem comigo me sinto absolutamente constrangida. Então me perdoe.
Não te preocupes com as facas aqui. Nunca estão suficientemente afiadas. Também o instinto? Quem sabe? E eu não quero mais pensar. Volto outro dia. Me despeço com a mão no coração e os olhos apertados.
Por último, não vou ficar para ouvir, mas deixo no ar a sua Miss Misery. A propósito, Minnie Driver segue linda.
Um beijo.
...?
Uma questão: como assino?
...
(De Ceronha Pontes – CARTAS)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

BOA NOITE


3.43
Na madrugada insone me assalta o pensamento uma afirmação do André Breton (de Nadja), que surpreende as visitas escrita numa das paredes que levamos conosco daquele universo muy particular e maravilhoso do Francisco Brennand: A BELEZA SERÁ CONVULSIVA OU NÃO SERÁ.
Repito isso como um mantra e penso que é preciso ter "olhos" corajosos para apreciar a, digamos assim, experiência convulsiva. O resto é patinar no raso, no traço sem fissura e sem frisson. Eita, qualquer coincidência terá sido pura maldade do demasiado humano em mim.
Passa um vento forte por essa esquina do centrão do Recife e, não é nem que ele mude o pensamento, mas vira a bolacha na vitrola da minha "racionalidade embolada", como diria o Nikolaj, e eu me lembro que em 1972, quando eu nasci, um anjo torto e maldito cantava, em parceria com outro da mesma estirpe, que NÃO ADIANTA.
E eu esperaria até as 4.48 para finalizar este post se eu tivesse em casa um Cabernet Sauvignon búlgaro 1986 e uma centena de Aspirinas, sem o quê delicados não voam pela janela. What? Ah, essa última memória deixo que a Sarah Kane desexplique a quem interessar possa.
4.27
Antes que seja tarde, o Sérgio: https://www.youtube.com/watch?v=1Y2pwusF3MY
Ceronha Pontes

Carta pra Frederick



Frederick, seu depravado,
Estou na quinta de um escocês fodido. Porra, tu andas muito cheio de frescura afundado nesse cabernet de merda. Freddie está aqui arrepiando na vitrola, oh mamma mia. Foi aniversário dele por esses dias. Setentaço. E finado. Que lástima.
Porco, tive uma iluminação agorinha. Presta atenção, tu vais precisar de uma fé para quando eu te faltar. Quando eu te faltar, procura o Candomblé. Te entrego a Ogum, que abrirá os teus caminhos. Sei que tu tens o péssimo hábito de se render ao melodrama, ao Almodóvar e ao Recife. Odeio tudo isso. Mas podia ser pior. Tipo, todo domingo se entupir no rodízio de uma churrascaria da Aldeota ou do Papicu (riso com arroto).
É sério, infeliz, isso que te falei sobre a fé. Não espero muito da tua racionalidade. Portanto: Ogum.
Axé.
Teu gordo e embriagado rinoceronte,
Nikolaj.
(De Ceronha Pontes - CARTAS)
Extras:
¹ Um Lucien Freud

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

EXPLÍCITO


Encanta-me o caráter do trovão, enquanto me apavora a sorrateira Chuva Rala.

Ceronha Pontes
12 de setembro de 2016

domingo, 11 de setembro de 2016

FLORENCIA


Ignacio chegou e Florencia atirou-se em seus braços como quem acordasse à beira de um precipício. 
A presença de Ignacio dava a Florencia a sensação de que finalmente os deuses lhe foram clementes. Ele, silencioso e terno, segurou-a longamente, mas de modo que não se sentisse presa. Depois de muito tempo enlaçados se espalharam pela casa em plena conexão. Um fio raro sempre ligou um ao outro. Eles nunca souberam o nome disso. Em verdade não é uma preocupação.
Ela corre finalizar a massa enquanto ele, já no quarto, adivinha um cinzeiro sufocado na mesinha de cabeceira, sob Clarices, diários de Anaïs e ainda o Rubem Fonseca com aquele seu “E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto”. Ignacio pegou o cinzeiro metendo a mão sob os livros, que desabaram com o movimento. Os recolhe e antes que pudesse coloca-los sobre a cama desarrumada de Florencia, um poema na contracapa do livro do Rubem lhe chamou a atenção. De avental, colher na boca lambendo o molho bolonhês, Florencia para na porta para não interromper a leitura de Ignacio. Ele termina o poema, ergue a cabeça com um esboço de sorriso lançado à janela escancarada, decidido a ler o livro. Surpreende-se com a presença de Florencia quando ela lhe diz que foi o Álvares de Azevedo na contracapa que a seduziu também. Disse que ele podia leva-lo de presente. Ele abraça o livro com um riso largo, que era seu jeito de agradecer. Florencia lança um olhar breve, mas forte para o diário de Anaïs largado sobre os lençóis e se retira. 
Já na sala Ignacio guarda o livro na mochila de onde tira um pacotinho. Com pequena parte do seu conteúdo prepara um cigarro e vai sentar-se no chão da cozinha, com o cinzeiro entre as pernas. Florencia não fuma, mas brinca atirando-lhe um isqueiro que mora sobre o microondas. 
Quem os ouvisse conversando pensaria se tratar de uma língua inventada por eles e para eles. Que amor, aquele?
Comida pronta, sentaram-se à mesa bem posta na sala, comeram e beberam muito. E ela chorou inteiro um rio longo e riu também, porque Ignacio sabe fazer graça e estava especialmente empenhado nisso aquela noite. Já bêbados, jogaram-se no sofá, um do lado do outro. Ele procurou um filme besta na TV e ela, com a cabeça apoiada no seu ombro, dormiu por uns minutos mais profundamente do que as últimas muitas noites.
Foi quando ele se mostrou sério, mas sempre e absolutamente terno. Fez um carinho no rosto de Florencia, depois ficou imóvel até que ela despertasse. Ainda entorpecida, mas segura do que se passava, ela lhe beijou o rosto e falou meio rouca:
- Você me dá sono, viu? E isso é um grande elogio que lhe faço.
Ele riu e disse que agora já podia partir. Desejou que a luz de um outro dia a compensasse por todas as dores. 
Meio trôpega, Florencia acompanhou Ignacio até a porta onde se deram outro demorado abraço. Ela jura tê-lo visto voar depois disso. Deve ter sido o vinho. Entrou, fechou a porta e quando se voltou para a casa novamente, correu-lhe um choro grande outra vez. Ela gritava em silêncio afogado:
- Ignacio, eu ainda sinto essa vontade de morte. 
Era tão insuportável que Florencia desmaiou no meio da sala. Sozinha.
Já vi isso acontecer com Angie. Florência ressuscitará. Algum dia, desses menos esperados, ressuscitará. Um anjo me garantiu que sim. Bem, eu não acredito em anjos, mas que eles existem...
Ceronha Pontes
Recife, 11 de setembro de 2016
Extras: 
¹ Para quem quiser saber de Angie, basta um clik.
http://ceronhapontes.blogspot.com.br/2010/07/angie.html
²E sinto vontade de também iustrar o post com Alice cantando seu avô Caymmi.
https://www.youtube.com/watch?v=NH_sxoIpz8M



domingo, 4 de setembro de 2016

ESCAFANDRISTA



Quero morrer, mas, que grandessíssima merda, não estou vencida. Ainda tenho um escafandro. Visto-o.  Afundo.  Cá embaixo vejo o que sequer teve tempo de ser inventado, desgastado, abandonado ao mar. Recolho o que não foi. Derramo-me nessas águas fundas e sei que na superfície o mar parece ameaçador, posto que o faço crescer enormemente com meu sal. 
Um vestígio seu, eu imploro às forças da natureza.  Um sinal, um gosto. Mas é tudo sal, e sal em excesso não realça o sabor. Mata-o.  
Mate-me!


Ceronha Pontes

LUA NEGRA


Com o coração espremido, vestindo o preto de um luto romântico fora de tempo, caminhei da minha casa até o Teatro Arraial Ariano Suassuna ameaçada pelo céu, que tem estado por um triz. Por que não desaba de uma vez?
Entrei no teatro para ser imediatamente enredada por uma imensa lua negra suspensa no palco. Não havia rota de fuga. A noite grande onde habita Antônio Maria já nos absorvia a todos: os infelizes e os outros. Todos imersos numa saudade do Recife, como se não estivéssemos ali, em plena Rua da Aurora, com o Capibaribe correndo seus mistérios. Era Dalva Torres chegando com Frevo nº 1.
Nesses tempos em que o mau gosto tem o trono, Dalva é estrela rara reluzindo resistência. Ela, que ao lado de Araci de Almeida, Nora Ney e Elizeth Cardoso, tem lugar na história como grande intérprete deste compositor cujas canções são possuídas de amores naufragados.
Não é só a beleza da voz, porque beleza para ser beleza mesmo há que arranhar, atravessar a pele, a carne, o osso até o tutano. Libertar do peito a alegria genuína, mas também a dor profunda e cruel que é o preço de se amar demais. A beleza molha e salga o riso. É disso que Dalva é capaz com sua, agora sim, linda voz, seu humor, sua propriedade do ofício. A música se rende a Dalva, que lhe toma com zelo e uma alegria menina.
AO AMOR, ONDE O AMOR FOI DEMAIS, o espetáculo, era Antônio Maria cantado de muito fundo e atirado sobre nós, expondo qualquer amor falido e despedaçado sob a máscara. Vergonha, meu Deus! Antônio Maria, por Dalva Torres, nos arranca a máscara. Sofri. Sofri mesmo. Quase grito que também eu “nunca mais vou fazer o que o meu coração mandar”. Mas já estava lá, no centro do palco, surgido de dentro da escuridão tão breve que mágica, quando o teatro por um momento foi todo uma lua negra, o Xico de Assis, numa interpretação que me fez silêncio. Era como o próprio Antônio Maria agonizando de amor para o nosso delírio. Eu, toda água e sal, escorrendo na primeira fila.
Ah, que noite tão grande, acentuando meu luto, mas revolvendo-me a alegria e me reconstruindo também, porque o belo tem esse poder, ainda que doa.
Caca Barreto, Aristide Rosa, Tomás Melo, Maurício Cézar e Alexandre Rodrigues (Copinha), músicos de inequívoco talento, são também de uma elegância pouco usual nesses tempos em que, repito, o mau gosto tem o trono. Todos muito responsáveis pelo êxito do trabalho e a grandeza do encontro. Um trabalho orquestrado, digo, dirigido por Gonzaga Leal, com a sensibilidade e a competência aflita de quem se apodera do caminho, mas o sabe longo, muito longo.
Uma noite rara, linda. Passados alguns dias acredito que o céu não tenha desabado em respeito a isso.
Felicito ainda o Jorge Féo, produtor, cuja participação no processo é também determinante, e a Natalie Revorêdo, iluminadora ou, melhor dizendo, encantadora.
Bravíssimos!

Ceronha Pontes