quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Ressuscita-me!
Luz no fim do túnel, teu nome é teatro. Ah, o teatro!
Foi sempre menos difícil atravessar a tempestade com uma estréia marcada. Porque o teatro não renega as coisas do viver, mas se alimenta delas. De um extremo a outro de ser, abraça. Toda gente cabe, todo sentimento, toda sensação, toda vontade, toda negação. A prática teatral me deixou mais "profissa" na vida. Eu acho. Me gabando. Pode parecer coração endurecido, mas tomei foi preguiça dos excessos. Na vida ou na cena só o que serve à composição perfeita. Pouco importa se não se atinge. Persigo, passo a passo, o belo e seu avesso. Meu corpo entregue em poesia de carne.
Atirada a minha dor subliminar na sua cara, caro leitor, o convite:
CAMILLE CLAUDEL
estréia 07 de outubro, às 20h, no ANGU.
Rua dos Artistas, 160, Torre, Recife-Pe
(antiga Casa de Bamba)
Ceronha Pontes
terça-feira, 13 de setembro de 2011
sem título
Para Ihas
Noite de lua imensa esta. E linda. Ela estava assim também, quando o Papai se foi. É das poucas imagens que guardo realmente vivas. Começo de noite, vez em quando me voltava para apreciar o cortejo atrás de mim. Porque fui lá na frente (parte do tempo ao lado de meu Padrinho Helênio), sóbria, serena, cabeça erguida, orgulhosa do Edson. Aquela lua, nascida por detrás da Serra das Matas, um farol iluminando o grande final.
Me lembro que também o dia havia sido bonito. Fui de Fortaleza a Tamboril agradecendo as poucas e bem dispostas nuvens que se arrastavam lentas no magnífico azul, reverenciando meu Pai. O choro só viria depois. E era também bonito porque foi o mais carregado de amor que já derramei.
Tanta necessidade de encontrar beleza naquele que devia(?) ter sido meu dia mais infeliz (e foi bem o oposto), é porque tive tempo de vê-lo doer, doer, doer, doer até que me parecesse justa a morte. E não que seja melhor assim que de outro jeito. Nem pior. Meu olhar (instinto de sobrevivência?) elegeu esses lances, e assim me defendo.
Depois, como hoje, veria a danada chegar abrupta, metendo a sua foice no fio de quem tanto importa a quem amo. É quando me rendo às preces, pedindo aos deuses e ao Santo Anastácio que façam o que minha impotência não alcança. Urgentemente!, tenho vontade de gritar. URGENTEMENTE! Chegue logo o tempo de quem amo vir que ter amado tudo, tudo, tudo, sem dever nadinha, nos devolve à calmaria.
Cé
13 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
"Um táxi pra Paris"
Como vêem, não tenho muito o direito de reclamar da vida, mas, com este meu temperamento lunar, me ocupo justamente em sofrer o fato de o Acaraú não constar mais na lista de opções. Gente é um bicho muito insatisfeito.
Seque um vídeo todo especial para o Ed, só pra ele saber o que a gente andou perdendo lá em Fortaleza esses dias.
- Menino, vamo marcar um guaraná no Damião, uma have no Betão? Pô, nosso pedaço, afinal.
Sem contar que a partitura da Leona é uma aula. Sério. Sério mesmo.
- Menino, vamo marcar um guaraná no Damião, uma have no Betão? Pô, nosso pedaço, afinal.
Sem contar que a partitura da Leona é uma aula. Sério. Sério mesmo.
SEM ASSUNTO
- Hoje usei o controle remoto pra acender o fogão e pausar a programação da tv. Juro pelo Papai.
- E tou matando a sede com Aquarius Fresh até amanhã. Esqueci mais uma vez de comprar água.
- Olho o relógio e esqueço imediatamente a hora.
- Não aprendo mais letra de música. Nunca olhei tanto o encarte ou o google, se quero acompanhar.
- Leio, mas não sei o que me leva à página seguinte.
- Em menos de um mês me livrei de dois atropelamentos na minha esquina. Pra quê tanto carro no mundo?
- O QI despencou.
- Sem inspiração, nem vontade. Vontade nenhuma. O dever me salva.
- Quando é que eu "como" os meus dedos que só vejo quando já estão inflamados?
- Comprei uma revista com a seguinte manchete: Como não pagar mico na balada. ???
- E já não enxergo nem decoro textos como antigamente.
Ficando brôca. E cega.
Será idade? Será saudade? Será o fim?
De qualquer modo, "o pulso ainda pulsa". Prefiro cortar o cabelo mesmo.
Ceronha Bisonha
P.s.: Pelo amor de Deus, nada de e-mails com orações ou slides horrorosos, tipo auto-ajuda ou campanhas terroristas por uma vida saudável.Arrg!
sábado, 10 de setembro de 2011
BOM DIA!!!
Hoje, às seis da matina (fui dormir por volta das três), uma maluca interfonou tão insistentemente que atendi assustada. Queria saber se tem apartamento pra alugar aqui. E não existe placa alguma indicando isto, vejam bem. Dei-lhe um esculacho em cearês que pode promover efeitos devastadores.
Continuou chamando outros apartamentos. Lembrei-me do Velho G, que precisa de repouso, e corri pra tentar impedir que ela tocasse lá. Melhor responder de uma vez, pensei. Não deu tempo. O Velho já estava na janela, que fica bem em frente ao portão, conversando tão educadamente com a criatura, que me enchi de remorso. Fiquei ouvindo o papo. Ela (uma senhorinha meio desnorteada) perguntava a mesma coisa repetidas vezes, como se não entendesse ou aceitasse. Queria por fim da força despejar alguém ou, sei lá, morar conosco(?). Fino, meu amigo respondia quantas vezes, com a paciência dos bons. Ah, se eu soubesse despachar os inconvenientes com a mesma classe e doçura do G!
Ela era só alguém precisando muito estar em contato. O mundo não tá lá essas coisas mesmo, né? Então, pra quê acrescentar em desgosto soltando os cães raivosos deste meu peito enérgico sem noção?
Tardiamente me dei conta de que a tal senhora havia operado um milagre. O Velho, bem fraquinho, há dias nem se sustentava em pé e, no entanto, esta manhã conseguiu ir até à janela para atendê-la. Com a sua M. (que falta nos faz!), sempre esteve a postos pra ajudar a quem quer que fosse. A mim, inclusive. Abusivas vezes.
Será que eu devia ter convidado a criatura pra um café?
Pontes
Recife-Pe,10 de sentembro de 2011
METHA BAVANA
"Cai na dança, cai!
Vem pra roda da malemolência." (Céu)
Que os seres todos se libertem do sofrimento e encontrem o verdadeiro sentido da felicidade. QUERO. Mas, ah, meu Candeeiro, não se ofenda se tão despudoradamente lhe confesso que tanto mais sinceridade alcança este meu desejo, se tenho as mãos nas cadeiras e flor no cabelo.
Eu vou dançando. Te encontro "lá".
Ceronha
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
OS MENTIROSOS
Ele a viu toda bonita, ainda menina, vestida de branco, trança contendo as ondas revoltas dos longos cabelos castanhos, praticando tai-chi na quadra de esportes da Faculdade de Filosofia.
Cantou para ela Che Gelida Manina, do Puccini, e ela ria muito, muito surpresa. É que ele falava tão baixinho, mansinho, sem pressa, que a voz cantada (tamanha) parecia de outro espírito.
A verdade verdadeira é que ela prefere poesia e aposta nos benefícios da inquietude. Ele é optante do silêncio.
(...)
Mas o AMOR, este anarquista, os perdoou.
Ceronha Pontes
Recife-Pe, 09 de setembro de 2011
Pra ele:
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
LETTRE D`AMOUR (parte final)
Catherine tomando remédio com licor, secando o rosto úmido no ventilador, tenta promover uma pneumonia, uma tuberculose, sei lá, alguma romântica mazela que lhe mate. Marion, levemente embriagada de tristeza e meia garrafa do pinot noir guardado para quando a Doida voltasse, apelando pras Arábias (arroz com lentilhas, carregado de cebola e pimenta), peleja para recompor a Bisonha. Operação Mjadra, batizou Charlotte, certa vez. Ao meu lado e padecendo do mesmo artifício de serenidade, Isabelle.
Configurada em tufão, parecida quando jovem, ela invade a casa. Vai direto ao ponto. Não se ocupa nem de sua Marion, cujo choro se solta violento. Não de raiva, mágoa ou ciúme. Alívio. Catherine, num gesto quase involuntário, aperta a mão gelada e trêmula da Pequena. Eu e Belle não sabemos ainda o que fazer.
Adivinho a pouca sutileza de Charlotte ao despertar Hélène de seu longo sono de fuga. Hélène grita coisas incompreensíveis. Seu desespero nos arranca da inércia e nos amontoamos na porta estreita do quarto onde Charlotte oferece uma e outra faces, repetidamente, até que aquela gaste as forças e fúria.
Em estado de extrema e absoluta exaustão, se identificam. Charlotte é, enfim, capaz de ouvir o coração de Hélène que, pela primeira vez, orgulha-se da capacidade de resistência e irremediável dom de Charlotte. E esta voltou conforme havia advertido nas correspondências. Marcada de tempo e ferida, um pouco sem beleza ou saúde, mas, limpa. Traz consigo o desejo claro de cumprir-se, simplesmente. Sem mais excessos de ordem alguma. Cumprir-se. Quem lhe negaria?
Prometeu levar Hélène a outro continente, encontrar o seu amor de há seculos. Em troca de saber tudo, absolutamente tudo sobre eleger alguém sentido de ser e de estar. Porque Charlotte nunca se entregou, mas era autoridade em fazer crer àquele a quem envolvia e depois incitava a partida, que morreria de tal produzido e dirigido abandono. O que seria mesmo divertido, não tivesse tantas vezes abusado do realismo. Com alguma dor de todas as partes, selaram a paz por tempo indeterminado.
Não houve o jantar especial planejado por Marion, nem lençóis limpinhos para proteger a "rebelde" na primeira noite desde tantas que foram obrigadas a passar em claro, temendo pelo seu destino. Tudo aconteceu e segue ao revel das expectativas cultivadas.
Comigo, no entanto, Charlotte teve de se explicar. Voltou, agora sei, devido aos apelos de uma Criatura que deixou aos cuidados de Isabelle há muitos anos. Não me admira o desprendimento. Naquele tempo não faltaria um ou outro maledicente que afirmasse, assegurando por A mais B, que a jovem Charlotte, não sabendo muito de si, confundia-se com os papéis. Belle imprimiu toda a dignidade de seu caráter mas, agora, que os dias são outros e vivemos em outras terras, a Criatura virá pelo canal apropriado: Charlotte. Por ela, que é capaz de unir sem pudores as destemperanças de todas as outras na medida que lhe exige a composição.
O que mais me comove nesse desfecho é ver o amor desmedido da Criatura servir de redenção para Hélène. Amar até à loucura. Pois bem, Charlotte o fará.
Neste momento, enquanto elas dormem feito fossem inocentes, sinto já doer em mim, outra vez, a "vida alheia". Por séculos e séculos. Assim seja.
Ceronha Pontes
Recife-Pe, no primeiro minuto de 08 de setembro de 2011
sábado, 20 de agosto de 2011
LETTRE D'AMOUR nº 10
Serenata para Marion, a minha salvadora.
Com amor,
Charlotte.
Quando ela fala
(Machado de Assis)
Quando ela fala, parece
Que a voz da brisa se cala;
Talvez um anjo emudece
Quando ela fala.
Meu coração dolorido
As suas mágoas exala,
E volta ao gozo perdido
Quando ela fala.
Pudesse eu eternamente,
Ao lado dela, escutá-la,
Ouvir sua alma inocente
Quando ela fala.
Minha alma, já semimorta,
Conseguira ao céu alçá-la
Porque o céu abre uma porta
Quando ela fala.
LETTRE D'AMOUR nº 9
Esperando Charlotte.
Bisonha de banho tomado, cabelos trançados, vestido bonito, recitando um Maiakóvski "açoitado pelo desespero". Belle, livre dos papéis e calendários, agradece aos santos e ao buda de gesso o necessário e prometido regresso. Enquanto morro de medo.
Foi por desistir que assim se demorou dolorosa vez. O milagre que a impediu, nossa fortuna. É terrível imaginar que possa considerar novamente abandonar-se, e a nós.
Sou a parte mais triste sem a Doida. A que primeiro definha. Minhas últimas forças para dizê-lo. Ainda que tanto admire a sua capacidade de ir.
Marion.
Por Ceronha Pontes
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