quinta-feira, 16 de junho de 2011

Correndo pro mar nº 2



Entre as muitas manias, ouvir ou cantar a mesmíssima canção dias a fio, ou estar em companhia de um mesmo autor por longas temporadas. Leio e releio o capítulo, poema, conto, artigo, o que seja, até me sentir capaz de seguir sem até...
Pois bem, depois de muito fazer festa pra mim com A voz do coração, aquela do Celso Fonseca e do Ronaldo Bastos, cujos versos garantem que 

"meu mundo não caiu
preciso lhe falar
eu gosto de você demais
preciso lhe dizer de todo coração
a falta que você me faz",

comecei a sonhar esquisito, depois triste, terminando por ser bem ruim. Sei lá, deu um negócio. Engraçado, quando a "esquisitice" sobressai na minha pessoa, geralmente me acosto à Hilda Hilst. Com isto não pretendo classificá-la de modo algum, apenas dizer o que se passa. Desta vez, no entanto, convocou-me o "amigo" Eduardo Galeano, com seus Dias e noites de amor e de guerra. Abro em qualquer página...

A  terceira margem do rio

Guimarães Rosa tinha sido advertido por uma cigana: "Você vai morrer quando realizar sua maior ambição".
Coisa rara: com tantos deuses e demônios que este homem continha, era um cavalheiro dos mais formais. Sua maior ambição consistia em ser nomeado membro da Academia Brasileira de Letras.
Quando foi designado, inventou desculpas para adiar o ingresso. Inventou desculpas durante anos: a saúde, o tempo, uma viagem...
Até que decidiu que tinha chegado a hora.
Realizou-se a cerimônia solene, e, em seu discurso, Guimarães Rosa disse: "As pessoas não morrem, ficam encantadas".
Três dias depois, ao meio-dia de um domingo, sua mulher encontrou-o morto quando voltou da missa. 

Seu Eduardo judia. Gosta que me derrame. O rio corre.

Ceronha Pontes
Recife-Pe, 16 de junho de 2011
  

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Etéreo



Nada tem que dar certo
Nosso amor é bonito
Só não disse ao que veio
Atrasado e aflito
E paramos no meio
Sem saber os desejos
Aonde é que iam dar
E aquele projeto
Ainda estará no ar...

(Eclipse Oculto - Caetano Veloso)


Caco afastou-se até se apropriar de uma condição tal de irrealidade, que se tornou matéria de sonho. Desses que ela só tem vez perdida, e dos quais acorda como quem fosse traída. Era assim que Memé se sentia esta manhã. 
Ele bateu à porta, entrou educadamente depois que ela, com um gesto, o convidou a fazê-lo. Parecia cansado. Estava mais magro, muito mesmo. A barba continuava mal feita, com uns fios brancos a mais. Sempre bonito, ela pensou. Ele observava a casa nos seus mínimos detalhes, perscrutando a vida que ela construiu com outro. Cômodo a cômodo, sem pressa, ele vasculhou. Reconheceu-a, reencontrou-se. Gentil, Memé escancarou seu riso mais desarmado e só não o abraçou porque ele se constrange com o toque. Memé é a criatura mais fiel que existe. Passe o tempo que passar, mude o tanto que for, não se recusa. Há de guardar indeterminadamente o frescor, a claridade, o perfume de um lugar insuspeitável a ele dedicado
Caco despiu-se e entraria no banho quando ruídos deram conta da chegada do amor de realidade, tão palpável e verdadeiro, tão seguro e à vontade que nem se incomodou com a presença rarefeita do velho conhecido. Falava sem parar, o dono da casa, contando alegremente o dia vivido, distribuindo as frutas frescas colhidas no caminho. O "intruso" então recompôs-se, riu discretamente quase sem vontade e partiu. 
Memé acordou  sem ar. Lhe esperava com a mesa bem posta aquele que está. Felizes como poucos mas, hoje, só por hoje, ela será triste. 

Ceronha Pontes
Recife-Pe, 09 de junho de 2011

ilustração de luxo:

terça-feira, 7 de junho de 2011

Calafrios








Ceronha Pontes e Hermila Guedes
(foto: Ivana Moura)


É claro que um maine coon não vai trazer a sua amada de volta. Tampouco um yorkshire lhe dará status. E Sartre estava certo quanto ao inferno. Ah, o outro! Amor nem sempre vem acompanhado de beijos e, às vezes, MATA. Duvida?
ESSA FEBRE QUE NÃO PASSA...
De Luce Pereira, pelo Coletivo Angu de Teatro,
no Teatro Hermilo Borba Filho (Recife-Pe), sábados (19 e 21h) e domingos (18 e 20h).


Cecé
Recife-Pe, 07 de maio de 2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Leviandades



A gente arma uma confusão do cacete, agita o céu e o inferno fazendo motim com o cão e outros encrenqueiros de asa,  uma agonia medonha na peleja pra garantir poder de decisão ao menos sobre esta coisica titica que é um rumo a tomar, enquanto a danada Daquela não chega.... 
Danei-me, Seu Menino, que me espalhei foi demais! Juntar não posso. Ir por aqui ou por ali é um tal de abandonar pedaço de valia que sobro um aleijo, qualquer que seja eu. 
E agora? Tanto quis que nem Santo Anastácio se ocupa em acudir. Faça isso comigo não, meu Santo. Sou devota fuleráge¹, mas tou é precisada, tenha medo. Hômi, tá de noitim e ainda não sei pra onde correr. Quem Danado botou na gente um coração atuleimado² e mais um monte de idéia abarrotando o juízo? Devia arcar com o estrago. Sem querer ofender o Todo Poderoso, que não tou em condições, mas noutra oportunidade (contando que terei) diga lá  que pode botar menos interrogação, menos emoção, menos imaginação, menos danação, menos...  Olhe, saia diminuindo em tudo que for "ão", passe o lacre e deixe ser pra ver qual é. 
Sem me bulir, tou aqui só no aguardo "visse"? Demore não.

Ceronha Bisonha
Recife-Pe, 02 de maio de 2011



¹ Fuleráge: de qualidade duvidosa, sem futuro.
² Atuleimado: exagerado.
   

terça-feira, 31 de maio de 2011

Relicário



Acontece, às vezes, de me encontrar comigo mesma num lugar antigo. 
Hoje acordei "lá", em companhia de Antônia e sua excêntrica família. Um sonho ruidoso em que aquela gente toda atracou. O "porto" é velho conhecido.
No tempo da película (1995), o fim que eu não determinasse não seria meu. E tinha tanta necessidade de ser dona disso! Vontade que hoje é só um amargo na boca, que sai com o tempo e Cepacol. Observo.
Sou aquela mas,  salva pela incapacidade de me repetir. 

Ceronha Bisonha
Recife-Pe
31 de maio de 2011


EXTRAS

¹ a carta de Dedo Torto:

Querida Thérèse,


É um absurdo acreditar que a dor constante que nos aflige seja mera casualidade. Pelo contrário. A miséria é a regra, não a excessão. 
A quem posso culpar pela nossa existência? À explosão solar que nos deu a vida? 
Acuso a mim mesmo, já que não acredito em Deus, nem na eternidade. Não me iludo de que a vida promete sobremesa divina depois de indigesta refeição. Nunca pude aceitar o conceito equivocado de que um dia tudo irá melhorar. Nada vai melhorar. Melhor ou pior, só será diferente.
Não quero mais pensar. Sobretudo, não quero mais pensar.


Ditostorto.

²

segunda-feira, 30 de maio de 2011

ENQUANTO AINDA...

Para Elliott e Sarah.


"A sanidade encontra-se no centro da convulsão, onde a loucura é arrasada pela alma dividida.
Conheço-me.
(...)
Às 4.48 vou dormir." (Sarah Kane, 4.48 Psicose)




Sinto sim, a sua falta, menino, e isto lhe importa quanto? Você sabe lá quem sou e o que fiz da minha miséria? 
Ok, ainda me tenta essa dor mascarada com Johnny Walker ou Cabernet Sauvignon búlgaro, 1986 (que ela preferia), mas é que eu não topo mais o seu barato baratinho, entendeu? 
Escolher é aguentar o tranco, meu rapaz. Digo mesmo, porque estou aqui segurando um oceano, enquanto você se foi numa onda. Já não guardo facas pra depois da canção. 
E quando às 4.48 você encontrar com aquela, cante qualquer das suas lindas que me valem dias, dê-lhe o abraço que eu gostaria. 
Por aqui, minha tristeza se faz de outra toda noite. E é toda noite esquecida. Escolher é...


Ceronha
Recife-Pe, 30 de maio de 2011


na sua sintonia:

domingo, 29 de maio de 2011

Escândalo



A transparência permite mas, quem acredita? Mostre-se e estarás em paz.

Ceronha "insone da Silva" Pontes


um extra que é feito segredo de liquidificador:

terça-feira, 24 de maio de 2011

Entre outros



Eis o poema de Delmira Agustini (poeta uruguaia que viveu entre 1886 e 1914) que inspirou a prosinha curta citada no post anterior. ELES são Delmira, rinocerontes, girassóis e quantas formas mais assuma o sonho. 



FIERA DE AMOR


Fiera de amor, yo sufro hambre de corazones
de palomos, de buitres, de corzos o leones,
no hay manjar que más tiente, no hay más grato sabor,
había ya estragado mis garras y mi instinto,
cuando erguida en la casi ultratierra de un plinto,
me deslumbró una estatua de antiguo emperador.
            
Y crecí de entusiasmo; por el tronco de piedra
ascendió mi deseo como fulmínea hiedra
hasta el pecho, nutrido en nieve al parecer;
y clamé al imposible corazón... la escultura
su gloria custodiaba serenísima y pura,
con la frente en Mañana y la planta en Ayer.

              Perenne mi deseo, en el tronco de piedra
ha quedado prendido como sangrienta hiedra;
y desde entonces muerdo soñando un corazón
de estatua, presa suma para mi garra bella;
no es ni carne ni mármol: una pasta de estrella
sin sangre, sin calor y sin palpitación...
            
¡Con la esencia de una sobrehumana pasión!




Bonito, né?
Beijos estalados e rouquinhos. Maldito Free mentolado!



Recife, 24 de maio de 2011

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O Cravo Roxo do Diabo



Tou aqui toda orgulhosa, devo confessar. Meu queridíssimo Pedro Salgueiro, arretado escritor cearense ( de Tamboril), havia um tempo mostrou-se interessado em publicar um de meus escritos numa coletânea cearense de contos fantásticos. Pois o referido livro ficou pronto e será lançado no próximo 
dia 1º de junho, às 19h, no SESC/SENAC Iracema (Rua Boris, 90, ao lado do Dragão do Mar, em Forataleza-CE). 
ELES, foi o conto escolhido por Salgueiro. Para quem quiser ler ou reler basta um clic: http://ceronhapontes.blogspot.com/2010/04/girassois.html
Para ver os outros, só mesmo levando um exemplar desta edição em CAPA DURA, formato 16.5 x 23.5, miolo de 676 páginas em papel pólen.
Hômi, Seu Menino...







“O Cravo Roxo do Diabo”: o conto fantástico no Ceará


(Expressão Gráfica e Editora/ Selo Edição do CAOS)
Organização de Pedro Salgueiro
e pesquisa de Sânzio de Azevedo, Pedro Salgueiro Alves de Aquino (Poeta de Meia-Tigela) 
— ganhador do VI Edital de Incentivo às Artes da SECULT —

O FANTÁSTICO em 130 contos, 60 poemas e
17 recortes de romances cearenses.

A maior e mais completa coletânea do gênero no Estado



O diabo é quem duvida!


Um beijo desta Ceronha Pontes
Recife-Pe, 23 de maio de 2011

quinta-feira, 19 de maio de 2011

ATÉ O FIM



Toda estréia me rouba um pouco o chão. O teatro me tem inteira, como é próprio da natureza da coisa. Depois do aplauso, no entanto, a vida se exibe, como de fato, infinitamente maior, e é um custo não afundar na sensação de que foi perda de tempo todas as muitas horas dos dias intermináveis de longos meses debruçada na construção da fantasia. Por mais que uma coisa reflita a outra, invariavelmente. 
Depois de cumprida a "missão", o tempo me devolve diferentes a casa e o amor, e até me reconhecer ali, digo, aqui, demora uma dorzinha que me mantém um canto da  boca meio suspenso, segurando um riso do tipo bloqueador de perguntas. Ninguém ouse. Quem disse que busco respostas? Bastaria (se eu pudesse!) ficar em paz com esta "canção em dois tempos", me aproveitando descaradamente da poesia do Vital: "e ninguém nem percebia, que o real e a fantasia se separam no final"
Pois bem...
Aí voltava do Recife Antigo na boníssima companhia da Nínive Caldas ( ô mulher linda!), que me dizia importantes obviedades, com aquele seu jeito mais engraçado e feliz da face da terra. Sobre a gente não sair mesmo vivo desta "aventura". 
Disto ou daquilo, quero tudo.


Ceronha Pontes
Recife-Pe, 19 de maio de 2011

Para "Nininí" e quem mais mereça: