"Aonde está você agora
além de aqui dentro de mim?"
(Vento no Litoral- Renato Russo)
O excelente vinho que lhe ofereceram, a música que lhe rasgava secretamente a alma, gargalhadas que eram muito mais pelo que o barulho esconde do que propriamente pela graça do que diziam...
E aquela pouca gente se desdobrou em milhares logo na quarta ou quinta taça, terceira faixa do segundo disco. Quem sabe? Dissolvia-se na pequena multidão. Foi quando comovente recordação atirou-lhe de volta à realidade e, quem, ali, lhe devolveria contentamento tão longe no tempo?
Recolheu então a mão esquerda que, apoiada no balcão, se arriscava disponível.
Ceronha Pontes
hoje em João Pessoa-PB
sábado, 23 de julho de 2011
terça-feira, 19 de julho de 2011
O velho amor
Há alguns dias Helena e André voltaram ao hospital onde tiveram um filho interrompido. Desta vez para a última visita à Velha M. Embora longe de parecer com aquela que bem acolhera o casal na então nova cidade, a mulher guardava ainda alguma fé e vontade. Helena, no entanto, previa o desfecho. Conhecia o caminho. O pai lhe havia ensinado anos atrás. Não esqueceria. Correu amparar o Velho G, dono do melhor "bom dia!" que lhe tinham desejado. Ficaram assim divididos: André brincando de faz de conta com a Velha, e Helena abrindo passagem para as lágrimas do Velho. Enquanto aqueles planejavam uma festa de São João que não aconteceria, estes, muito emocionados, se diziam doloridas verdades com imenso carinho.
Helena, feroz na defesa de seu projeto individualíssimo, na recusa em seguir com André por onde tivessem muito o que aprender juntos, ouviu de quem bem sabia o fim das contas: "Dê-lhe a mão. O espetáculo que você não fizer é menos importante que a vida que você não viver." Soou-lhe violento.
A má notícia acaba de chegar.
Helena chora pelo Velho G, que ficou sem o seu amor da vida inteira. E chora por si, tão incapaz de seguir-lhe o conselho.
Ceronha Tristonha
Recife-Pe
19 de julho de 2011
domingo, 10 de julho de 2011
Entre os dedos
Ainda metida no pijama, intoxicada pelos pensamentos. Ele a observa e se atreve:
-Você está tão linda!
Ela ri ligeiramente. Ele insiste.
-Verdade. Livre de qualquer vestígio adolescente. Uma mulher. Inteira. Linda.
-Seus olhos.
-Sim, para os meus olhos. Que dádiva!
Pesado silêncio. Ela dobra lençóis. Ele permanecerá atento, cuidando.
Ceronha Pontes
Recife-Pe 10 de julho de 2011
os meninos dizendo melhor:
sexta-feira, 8 de julho de 2011
ÁTIMO
Visita distinta e rara e breve e comovente. Bem dizer coisa ressuscitada. Justo quando eu lia Gabriela Mistral, poeta chilena que me foi apresentada por Maria do Céu Cezar e Luce Pereira (queridas!). Fica o poema e uma aguinha salgada umedecendo meu rosto incrédulo.
ATARDECER
Siento mi corazón en la dulzura
fundirse como ceras:
son un óleo tardo
y no un vino mis venas,
y siento que mi vida se va huyendo
callada y dulce como la gacela.
(Gabriela Mistral)
Ceronha Pontes
Recife-Pe, 08 de julho de 2011
quinta-feira, 7 de julho de 2011
De barriga cheia
Ao Velho.
Vendo de fora, tudo é só felicidade. Afetos e chuva fina noS caminhoS seuS. Esse plural é que mata.Tivesse pernas pra tanto...
Da obrigação de largar, faz-se o veneno da escolha. Um dia bem, tudo bem, é isso aí. No outro é se pudesse não estar aqui.
Avessa à própria desperta natureza, tem-se apagado à toa. Escaparia no sono, não fosse pesadelar a cada vez.
Se ao menos aquele ainda vivesse e apontasse para o Norte... Ele, que a fez desobediente, era o único capaz de convencê-la. SÓ ELE, que não está, e de quem uns versinhos do Cazuza fazem especialmente lembrar.
Poema
Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E eu lembrei de um tempo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E eu lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei, nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte e já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E não tem fim
Mas não chorei, nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte e já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E não tem fim
De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito, porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito, porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás
quinta-feira, 30 de junho de 2011
DESPERDÍCIO
Ernesto tanto descuidou que, um dia, quando deu por si, Laura estava longe, quase desaparecida já. Para ele foi como descobrir-se à beira da morte. O instinto de sobrevivência arrancou-lhe um grito.
- Laaauraaa!!!!!!
Ela ouviu, refez o caminho, está ali de novo, mas, acometida de uma independência mortal para o amor. O quanto ele se ocupava em perdê-la, ela desaprendia a pertencer.
Laura teve grande amigo falecido de inconsequência em plena juventude. Ela pensa na vida breve do amigo enquanto não sabe o que fazer da sua. Chega a considerar que talvez ele tenha sido sempre muito mais razoável do que ela podia enxergar. Lembra da canção do Gilberto Gil que o amigo gostava tanto. Aquela do tempo, sabe? Laura canta em pensamento. Em verdade, implora.
"Tempo rei!
Oh, Tempo Rei!
Oh, Tempo Rei!
Transformai as velhas formas do viver.
Ensinai-me, oh Pai,
O que eu ainda não sei.
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei!"
Posso ouví-la. Juro que posso. Fico escutando com vontade de acudir mas, sendo eu quem menos pode...
Ceronha Pontes
Recife-Pe, 30 de junho de 2011
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Nem cruz e nem espada
Envenenada de dúvida, jaz Mariinha.
Ceronha Pontes
Recife-Pe, 22 de junho de 2011
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Correndo pro mar nº 2
Entre as muitas manias, ouvir ou cantar a mesmíssima canção dias a fio, ou estar em companhia de um mesmo autor por longas temporadas. Leio e releio o capítulo, poema, conto, artigo, o que seja, até me sentir capaz de seguir sem até...
Pois bem, depois de muito fazer festa pra mim com A voz do coração, aquela do Celso Fonseca e do Ronaldo Bastos, cujos versos garantem que
"meu mundo não caiu
preciso lhe falar
eu gosto de você demais
preciso lhe dizer de todo coração
a falta que você me faz",
comecei a sonhar esquisito, depois triste, terminando por ser bem ruim. Sei lá, deu um negócio. Engraçado, quando a "esquisitice" sobressai na minha pessoa, geralmente me acosto à Hilda Hilst. Com isto não pretendo classificá-la de modo algum, apenas dizer o que se passa. Desta vez, no entanto, convocou-me o "amigo" Eduardo Galeano, com seus Dias e noites de amor e de guerra. Abro em qualquer página...
A terceira margem do rio
Guimarães Rosa tinha sido advertido por uma cigana: "Você vai morrer quando realizar sua maior ambição".
Coisa rara: com tantos deuses e demônios que este homem continha, era um cavalheiro dos mais formais. Sua maior ambição consistia em ser nomeado membro da Academia Brasileira de Letras.
Quando foi designado, inventou desculpas para adiar o ingresso. Inventou desculpas durante anos: a saúde, o tempo, uma viagem...
Até que decidiu que tinha chegado a hora.
Realizou-se a cerimônia solene, e, em seu discurso, Guimarães Rosa disse: "As pessoas não morrem, ficam encantadas".
Três dias depois, ao meio-dia de um domingo, sua mulher encontrou-o morto quando voltou da missa.
Seu Eduardo judia. Gosta que me derrame. O rio corre.
Ceronha Pontes
Recife-Pe, 16 de junho de 2011
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Etéreo
Nada tem que dar certo
Nosso amor é bonito
Só não disse ao que veio
Atrasado e aflito
E paramos no meio
Sem saber os desejos
Aonde é que iam dar
E aquele projeto
Ainda estará no ar...
(Eclipse Oculto - Caetano Veloso)
Caco afastou-se até se apropriar de uma condição tal de irrealidade, que se tornou matéria de sonho. Desses que ela só tem vez perdida, e dos quais acorda como quem fosse traída. Era assim que Memé se sentia esta manhã.
Ele bateu à porta, entrou educadamente depois que ela, com um gesto, o convidou a fazê-lo. Parecia cansado. Estava mais magro, muito mesmo. A barba continuava mal feita, com uns fios brancos a mais. Sempre bonito, ela pensou. Ele observava a casa nos seus mínimos detalhes, perscrutando a vida que ela construiu com outro. Cômodo a cômodo, sem pressa, ele vasculhou. Reconheceu-a, reencontrou-se. Gentil, Memé escancarou seu riso mais desarmado e só não o abraçou porque ele se constrange com o toque. Memé é a criatura mais fiel que existe. Passe o tempo que passar, mude o tanto que for, não se recusa. Há de guardar indeterminadamente o frescor, a claridade, o perfume de um lugar insuspeitável a ele dedicado.
Caco despiu-se e entraria no banho quando ruídos deram conta da chegada do amor de realidade, tão palpável e verdadeiro, tão seguro e à vontade que nem se incomodou com a presença rarefeita do velho conhecido. Falava sem parar, o dono da casa, contando alegremente o dia vivido, distribuindo as frutas frescas colhidas no caminho. O "intruso" então recompôs-se, riu discretamente quase sem vontade e partiu.
Memé acordou sem ar. Lhe esperava com a mesa bem posta aquele que está. Felizes como poucos mas, hoje, só por hoje, ela será triste.
Ceronha Pontes
Recife-Pe, 09 de junho de 2011
ilustração de luxo:
terça-feira, 7 de junho de 2011
Calafrios
Ceronha Pontes e Hermila Guedes
(foto: Ivana Moura)
É claro que um maine coon não vai trazer a sua amada de volta. Tampouco um yorkshire lhe dará status. E Sartre estava certo quanto ao inferno. Ah, o outro! Amor nem sempre vem acompanhado de beijos e, às vezes, MATA. Duvida?
ESSA FEBRE QUE NÃO PASSA...
De Luce Pereira, pelo Coletivo Angu de Teatro,
no Teatro Hermilo Borba Filho (Recife-Pe), sábados (19 e 21h) e domingos (18 e 20h).
Cecé
Recife-Pe, 07 de maio de 2011
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