sexta-feira, 8 de julho de 2011

ÁTIMO



Visita distinta e rara e breve e comovente. Bem dizer coisa ressuscitada. Justo quando eu lia Gabriela Mistral, poeta chilena que me foi apresentada por Maria do Céu Cezar e  Luce Pereira (queridas!). Fica o poema e uma aguinha salgada umedecendo meu rosto incrédulo.


ATARDECER


    Siento mi corazón en la dulzura
fundirse como ceras:
son un óleo tardo
y no un vino mis venas,
y siento que mi vida se va huyendo
callada y dulce como la gacela.
(Gabriela Mistral)


Ceronha Pontes 
Recife-Pe, 08 de julho de 2011




quinta-feira, 7 de julho de 2011

De barriga cheia



Ao Velho.


Vendo de fora, tudo é só felicidade. Afetos e chuva fina noS caminhoS seuS. Esse plural é que mata.Tivesse pernas pra tanto...        
Da obrigação de largar, faz-se o veneno da escolha. Um dia bem, tudo bem, é isso aí. No outro é se pudesse não estar aqui
Avessa à própria desperta natureza, tem-se apagado à toa. Escaparia no sono, não fosse pesadelar a cada vez.
Se ao menos aquele ainda vivesse e apontasse para o Norte... Ele, que a fez desobediente, era o único capaz de convencê-la. SÓ ELE, que não está, e de quem uns versinhos do Cazuza fazem especialmente lembrar.


Poema

Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E eu lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei, nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte e já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E não tem fim
De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito, porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás


quinta-feira, 30 de junho de 2011

DESPERDÍCIO



Ernesto tanto descuidou que, um dia, quando deu por si, Laura estava longe, quase desaparecida já. Para ele foi como descobrir-se à beira da morte. O instinto de sobrevivência arrancou-lhe um grito. 


- Laaauraaa!!!!!!


Ela ouviu, refez o caminho, está ali de novo, mas, acometida de uma independência mortal para o amor. O quanto ele se ocupava em perdê-la, ela desaprendia a pertencer. 
Laura teve grande amigo falecido de inconsequência em plena juventude. Ela pensa na vida breve do amigo enquanto não sabe o que fazer da sua. Chega a considerar que talvez ele tenha sido sempre muito mais razoável do que ela podia enxergar. Lembra da canção do Gilberto Gil que o amigo gostava tanto. Aquela do tempo, sabe? Laura canta em pensamento. Em verdade, implora.


"Tempo rei! 
Oh, Tempo Rei!
Oh, Tempo Rei!
Transformai as velhas formas do viver.
Ensinai-me, oh Pai,
O que eu ainda não sei.
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei!"


Posso ouví-la. Juro que posso. Fico escutando com vontade de acudir mas, sendo eu quem menos pode...


Ceronha Pontes
Recife-Pe, 30 de junho de 2011



quarta-feira, 22 de junho de 2011

Nem cruz e nem espada


Doçuras de tantos caminhos por onde ela pudesse...
Envenenada de dúvida, jaz Mariinha.

Ceronha Pontes 
Recife-Pe, 22 de junho de 2011


quinta-feira, 16 de junho de 2011

Correndo pro mar nº 2



Entre as muitas manias, ouvir ou cantar a mesmíssima canção dias a fio, ou estar em companhia de um mesmo autor por longas temporadas. Leio e releio o capítulo, poema, conto, artigo, o que seja, até me sentir capaz de seguir sem até...
Pois bem, depois de muito fazer festa pra mim com A voz do coração, aquela do Celso Fonseca e do Ronaldo Bastos, cujos versos garantem que 

"meu mundo não caiu
preciso lhe falar
eu gosto de você demais
preciso lhe dizer de todo coração
a falta que você me faz",

comecei a sonhar esquisito, depois triste, terminando por ser bem ruim. Sei lá, deu um negócio. Engraçado, quando a "esquisitice" sobressai na minha pessoa, geralmente me acosto à Hilda Hilst. Com isto não pretendo classificá-la de modo algum, apenas dizer o que se passa. Desta vez, no entanto, convocou-me o "amigo" Eduardo Galeano, com seus Dias e noites de amor e de guerra. Abro em qualquer página...

A  terceira margem do rio

Guimarães Rosa tinha sido advertido por uma cigana: "Você vai morrer quando realizar sua maior ambição".
Coisa rara: com tantos deuses e demônios que este homem continha, era um cavalheiro dos mais formais. Sua maior ambição consistia em ser nomeado membro da Academia Brasileira de Letras.
Quando foi designado, inventou desculpas para adiar o ingresso. Inventou desculpas durante anos: a saúde, o tempo, uma viagem...
Até que decidiu que tinha chegado a hora.
Realizou-se a cerimônia solene, e, em seu discurso, Guimarães Rosa disse: "As pessoas não morrem, ficam encantadas".
Três dias depois, ao meio-dia de um domingo, sua mulher encontrou-o morto quando voltou da missa. 

Seu Eduardo judia. Gosta que me derrame. O rio corre.

Ceronha Pontes
Recife-Pe, 16 de junho de 2011
  

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Etéreo



Nada tem que dar certo
Nosso amor é bonito
Só não disse ao que veio
Atrasado e aflito
E paramos no meio
Sem saber os desejos
Aonde é que iam dar
E aquele projeto
Ainda estará no ar...

(Eclipse Oculto - Caetano Veloso)


Caco afastou-se até se apropriar de uma condição tal de irrealidade, que se tornou matéria de sonho. Desses que ela só tem vez perdida, e dos quais acorda como quem fosse traída. Era assim que Memé se sentia esta manhã. 
Ele bateu à porta, entrou educadamente depois que ela, com um gesto, o convidou a fazê-lo. Parecia cansado. Estava mais magro, muito mesmo. A barba continuava mal feita, com uns fios brancos a mais. Sempre bonito, ela pensou. Ele observava a casa nos seus mínimos detalhes, perscrutando a vida que ela construiu com outro. Cômodo a cômodo, sem pressa, ele vasculhou. Reconheceu-a, reencontrou-se. Gentil, Memé escancarou seu riso mais desarmado e só não o abraçou porque ele se constrange com o toque. Memé é a criatura mais fiel que existe. Passe o tempo que passar, mude o tanto que for, não se recusa. Há de guardar indeterminadamente o frescor, a claridade, o perfume de um lugar insuspeitável a ele dedicado
Caco despiu-se e entraria no banho quando ruídos deram conta da chegada do amor de realidade, tão palpável e verdadeiro, tão seguro e à vontade que nem se incomodou com a presença rarefeita do velho conhecido. Falava sem parar, o dono da casa, contando alegremente o dia vivido, distribuindo as frutas frescas colhidas no caminho. O "intruso" então recompôs-se, riu discretamente quase sem vontade e partiu. 
Memé acordou  sem ar. Lhe esperava com a mesa bem posta aquele que está. Felizes como poucos mas, hoje, só por hoje, ela será triste. 

Ceronha Pontes
Recife-Pe, 09 de junho de 2011

ilustração de luxo:

terça-feira, 7 de junho de 2011

Calafrios








Ceronha Pontes e Hermila Guedes
(foto: Ivana Moura)


É claro que um maine coon não vai trazer a sua amada de volta. Tampouco um yorkshire lhe dará status. E Sartre estava certo quanto ao inferno. Ah, o outro! Amor nem sempre vem acompanhado de beijos e, às vezes, MATA. Duvida?
ESSA FEBRE QUE NÃO PASSA...
De Luce Pereira, pelo Coletivo Angu de Teatro,
no Teatro Hermilo Borba Filho (Recife-Pe), sábados (19 e 21h) e domingos (18 e 20h).


Cecé
Recife-Pe, 07 de maio de 2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Leviandades



A gente arma uma confusão do cacete, agita o céu e o inferno fazendo motim com o cão e outros encrenqueiros de asa,  uma agonia medonha na peleja pra garantir poder de decisão ao menos sobre esta coisica titica que é um rumo a tomar, enquanto a danada Daquela não chega.... 
Danei-me, Seu Menino, que me espalhei foi demais! Juntar não posso. Ir por aqui ou por ali é um tal de abandonar pedaço de valia que sobro um aleijo, qualquer que seja eu. 
E agora? Tanto quis que nem Santo Anastácio se ocupa em acudir. Faça isso comigo não, meu Santo. Sou devota fuleráge¹, mas tou é precisada, tenha medo. Hômi, tá de noitim e ainda não sei pra onde correr. Quem Danado botou na gente um coração atuleimado² e mais um monte de idéia abarrotando o juízo? Devia arcar com o estrago. Sem querer ofender o Todo Poderoso, que não tou em condições, mas noutra oportunidade (contando que terei) diga lá  que pode botar menos interrogação, menos emoção, menos imaginação, menos danação, menos...  Olhe, saia diminuindo em tudo que for "ão", passe o lacre e deixe ser pra ver qual é. 
Sem me bulir, tou aqui só no aguardo "visse"? Demore não.

Ceronha Bisonha
Recife-Pe, 02 de maio de 2011



¹ Fuleráge: de qualidade duvidosa, sem futuro.
² Atuleimado: exagerado.
   

terça-feira, 31 de maio de 2011

Relicário



Acontece, às vezes, de me encontrar comigo mesma num lugar antigo. 
Hoje acordei "lá", em companhia de Antônia e sua excêntrica família. Um sonho ruidoso em que aquela gente toda atracou. O "porto" é velho conhecido.
No tempo da película (1995), o fim que eu não determinasse não seria meu. E tinha tanta necessidade de ser dona disso! Vontade que hoje é só um amargo na boca, que sai com o tempo e Cepacol. Observo.
Sou aquela mas,  salva pela incapacidade de me repetir. 

Ceronha Bisonha
Recife-Pe
31 de maio de 2011


EXTRAS

¹ a carta de Dedo Torto:

Querida Thérèse,


É um absurdo acreditar que a dor constante que nos aflige seja mera casualidade. Pelo contrário. A miséria é a regra, não a excessão. 
A quem posso culpar pela nossa existência? À explosão solar que nos deu a vida? 
Acuso a mim mesmo, já que não acredito em Deus, nem na eternidade. Não me iludo de que a vida promete sobremesa divina depois de indigesta refeição. Nunca pude aceitar o conceito equivocado de que um dia tudo irá melhorar. Nada vai melhorar. Melhor ou pior, só será diferente.
Não quero mais pensar. Sobretudo, não quero mais pensar.


Ditostorto.

²

segunda-feira, 30 de maio de 2011

ENQUANTO AINDA...

Para Elliott e Sarah.


"A sanidade encontra-se no centro da convulsão, onde a loucura é arrasada pela alma dividida.
Conheço-me.
(...)
Às 4.48 vou dormir." (Sarah Kane, 4.48 Psicose)




Sinto sim, a sua falta, menino, e isto lhe importa quanto? Você sabe lá quem sou e o que fiz da minha miséria? 
Ok, ainda me tenta essa dor mascarada com Johnny Walker ou Cabernet Sauvignon búlgaro, 1986 (que ela preferia), mas é que eu não topo mais o seu barato baratinho, entendeu? 
Escolher é aguentar o tranco, meu rapaz. Digo mesmo, porque estou aqui segurando um oceano, enquanto você se foi numa onda. Já não guardo facas pra depois da canção. 
E quando às 4.48 você encontrar com aquela, cante qualquer das suas lindas que me valem dias, dê-lhe o abraço que eu gostaria. 
Por aqui, minha tristeza se faz de outra toda noite. E é toda noite esquecida. Escolher é...


Ceronha
Recife-Pe, 30 de maio de 2011


na sua sintonia: