sábado, 21 de fevereiro de 2015

IMORAIS II


Naked Portrait (Lucien freud)

No quarto do hotel, ao calor da lareira, pequenos espasmos ainda. Restos de um sonho. Era só a metade da viagem, mas o outro mundo já se impunha. Concreto. De uma urgência autoritária.  Aaron pensou em Norma. Desejou que ela estivesse ali. Ele compraria uma garrafa de vinho e conversariam sobre o que só eles alcançam, como se houvesse uma língua só deles. E há. Eu mesma não compreendo tudo o que dizem, por mais participação que me deem. 
No dia anterior Norma enchia o abraço de Aaron, aberta aos seus carinhos, aos seus delírios. Partilhava do seu gozo com uma alegria que ele não haveria de esquecer. De repente, tudo tão impalpável.
Agora ele finalmente chegou em casa, que é muito, muito longe. Havia perdido as chaves, mas já conseguiu entrar, se instalar, se reconhecer na paisagem. Paisagem bem diferente daquela de que sofrem neste momento os olhos de Norma. Eu soube dela desalinhada pelas ruas do seu lugar, em estado de recusa do que lhe sobrou ali. Mas conheço seus poderes. Pude já presenciar sua recuperação em situações de improvável cura. Como não saberia lidar com as cicatrizes da alegria? Sei que vai caminhar muito, às vezes correr em disparada, enfrentar as curvas com tanta velocidade que há de desmaiar de tontura. Mas firmará seu passo novamente nas linhas tortas que elege. 
Eu os espero sob o frio no alto de uma ladeira. Ou numa canção. Assim seja.

Ceronha Pontes
Recife-PE, 21 de Fevereiro de 2015.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

IMORAIS


"Mal é que a moral nos reja,
Bom é que ninguém nos veja;
Entre isso fica viver ."
(Fernando Pessoa)

Selfie Portrait (Lucien Freud)

Eu não quero morrer! Isto explica a porta aberta. Entra, homem. Que tanto tu temes? Ou julgas?
Preferirias uma mulher atormentada pelos excessos da moral? 
Não pratico o fingimento. Pratico a poesia e isso é outro universo. Onde o tempo não é perdido com falsa recusa, mas estendido no embelezamento do caminho. 
Vem. Com os teus medos, não me importo. Teu passo inseguro, teus movimentos mínimos. Vem com teu sorriso tímido, com teu fio de voz que te revela um gigante e tu nem desconfias. 
Eu te escolho, tu me escolhes. Basta.

Ceronha Pontes
Recife-PE, 17 de fevereiro de 2015

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A Mulher e os Cães


"Chorei porque daqui por diante chorarei menos.Chorei porque perdi minha dor e ainda não estou acostumada à ausência dela".
(Anaïs Nin - Henry & June)

Triple Portrait (Lucien Freud)

Ora, é preciso reinstaurar o gozo! Pensei alto. O mundo quase ouviu. Depois fiquei ali, quieta, abandonada entre os cães. 
Certa vez um amigo me confidenciou que esteve no fundo de um poço tão medonho que os ratos, cheios de intimidade, o seguiam pelos becos. Lembrei disso quando me vi acariciando os pulguentos. Não gosto deles e, no entanto, restamos nós.
Chorei de novo. Solucei saudades de quando fui aquela que tu adoravas. Quanto poder conferi a ti!
Tu não virás me buscar, é definitivo. Nem eu tentarei. E isto eu gostaria que tu soubesses. Todas as vezes que a vida me puser diante de ti, antes terei esgotado todos os desvios. 
Não suporto a feiura que assumi aos teus olhos. Não conheci mulher tão feia quanto esta que vejo refletida neles quando se voltam para mim. Isto me enche de vergonha do mundo todo, como se todos me enxergassem assim. 
É preciso reinstaurar o gozo! Penso novamente e aos berros. Os cães respondem cúmplices. Uivos ecoam dentro da noite. Então percebo o equívoco. Nunca fui capaz. Desde muito antes de ti. Desde sempre. Tive tanto medo, tive tanta culpa, que nunca fui capaz. Em verdade é preciso instaurá-lo. Contra toda negação estabelecida. É direito. É mesmo um dever. Pago com a fogueira, mas  devo cumprir. Decido.
Fogos explodem no céu. É carnaval. Os cães fogem velozes e me arrastam com eles. Não sei para onde me levam, mas sinto o vento redesenhando meu rosto.

Ceronha Pontes
Recife-Pe
13 de fevereiro de 2015


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Homem Nu



Davi and Eli (Lucien Freud)


Às vezes penso em te ligar, mandar um oi, saber como você tá. Mas aí aparece aquela curtida rara dele na tua foto, e eu sei que você fica cega, você fica louca. Você, cheia de esperança por causa de uma curtida, perde a cabeça e vai. Se arrebentando em direção contrária à minha rua. Deserta de ti.
Você diz que ninguém te fez tão feliz quanto ele. A promessa era linda, reconheço. Lhe seguir aonde você fosse... Ainda ouço você, orgulhosa, repetindo as palavras dele.
Apesar de te ter perdido, nem lamento não ter podido nunca te mentir assim. Meu caminho é claro e me exige, qualquer um vê. Nada neste mundo me faria prometer.
Me entristece a sua felicidade em se livrar de mim, me desamar como quem se cura de um câncer, celebrar e agradecer pelo nosso desencontro. Frustrei você porque não colori sua cabecinha, não vesti a fantasia. Eu nunca visto. Sou cru. Ando nu, em pleno carnaval. E é assim que eu amo você.

Ceronha Pontes


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Velhos amigos


Caríssimo Nikolaj,

Fiquei muito emocionado com tua última carta. Longa, detendo-se em questão da maior importância para mim. Um cuidado que me comoveu. Obrigado.
Tuas considerações eu respeito, acredites, mas não concordo contigo em tudo.  Em verdade me preocupas. Parece-me que desististe. Entendo que velhos como nós, que já viveram tanto e tão intensamente, tenhamos aprendido qualquer coisa sobre a insustentabilidade dos prazeres e que, por fim, a vida está muito mais a contemplar outros estados. Mas não penso que seja digno aceitar tanta demora no sofrimento. Pareceu-me que tu me sugerias isto ao dizeres para que eu me conformasse. Há situações em que podemos sim, e devemos: agir, transformar. Das escolhas que temos, poucas que sejam, não podemos nos furtar.
Se a criatura está doente, é preciso tratar. E ponto. Acho estranho que todos os outros doentes desejem e lutem pela cura, enquanto os doentes do espírito vivem gozando com a própria dor. E tu sabes o quão avariado é o meu espírito, de modo que falo por um conhecimento de causa que tu mesmo me ajudaste a conquistar.  É justo, admito, se é da escolha do indivíduo viver atormentado assim, que viva. Desde que não afunde, não envolva, não contamine, não adoeça outras pessoas. Será possível?
Fúria, medo, desdém, posse, inveja. Ah, esta última é de todos o maior veneno agindo na questão que te coloquei.  Inveja da liberdade, da segurança, da capacidade de criação e superação do espírito próximo. Aí a criatura doente se empenha em diminuir, destruir o que é do outro, para não estar só na sua pequenez.  Conformar-me em ser tratado assim? Não posso Nikolaj, aceitar a mesquinharia sem me espantar.
Naquilo que tens razão, estou sim, doente de compaixão. Deve ser. Porque ainda brigo para ver brilhar de novo o olho apagado que tanto amei. E que vem me apagando o olhar dia a dia. Responsabilíssimo, tu bem sabes, não jogo tudo fora por um colorido fugaz. Disso eu nunca fui capaz. Sei que sofro menos de ver findar o carnaval, que ver poluído o lago denso onde repousei. Choro a quarta-feira de cinzas, sabendo que não demoro mesmo a descartar a fantasia. Mas conformar-me em ver meu lago sujo não me parece o certo. Faço motim, meu caro. Não fujo à luta. A diferença agora, enquanto sofro pelejando para limpar estas águas, é que não me culparei mais pelas pequenas alegrias a mim tão generosamente destinadas. As Claras Luas que mais perecem sóis brilhando no meu Céu. Os breves carnavais recém-citados que atravessam a minha luta. A alegria é um direito.
Nikolaj, sobre a minha declaração de amor de outro dia, perdoe os excessos deste velho que não lhe queria constranger. Amo desavergonhadamente os amigos, que são um tesouro na minha vida, embora eu conviva cada vez menos. Às vezes penso que te assombra o amor. Qual seja. Pensei sobre isso de novo quando li o teu “conforme-se”.
Acompanha a carta um cubano daqueles. Que ele te traga boas ideias.

Sou o teu velho e gagá,

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Sertão



Amigo Sidney, ainda sobre tua partida...
Pois tu foste criatura tão danada de incrível, que mobilizaste um mundaréu de gente desde ontem, reunida em nome do amor, a celebrar a oportunidade cara, meu bem, de te ter nas nossas vidas. Entre tantas mensagens e ligações transbordantes de afeto, o Armando me enviou este vídeo de presente. Eu chorei ouvindo, mas não pude deixar de rir também, lembrando de quando a gente fazia bem o que se propunha, fosse eu, você ou o Dan, você vibrando: "Dá-lhe, Sertão Central!".
Viva Tamboril e o Monsenhor Tabosa, meu filho. E o Armandinho e a Maria Betânia. Evoé!





P.S.: Ah, e não se preocupe que em algum momento a gente vai parar de fazer postagens melosas, seja no facebook ou em blogs empoeirados. Te esquecer não prometemos, porque você não colaborou pra isso. Hahahahaha...

sábado, 24 de janeiro de 2015

Passo a passo


Não serão menos verdadeiras porque efêmeras. Mereça sim, Luciana, cada alegria breve. Tuas pernas pesam. Pesarão cada vez mais. Pesarão sem fim. Precisarás de alegria para mover-se tristeza afora.

Ceronha Pontes
24/01/2015
Recife-PE

extra


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Par-ti-da


Destituída da função de Última Coca-Cola do Deserto, Ariela não concordou em assumir o cargo de Mosca na Sopa, ou mesmo de Pedra no Sapato. Recusaria ainda o de Prato Cuspido, certa de que o próximo passo do declínio seria o de Cachorro Morto, entregue aos chutes de quem seja. Sem talento algum para o papel de Persona Non Grata, partiu por conta própria antes que lhe decretassem Carta Fora do Baralho.
Entretanto, consta que por onde anda, ainda está de luto.

Ceronha Pontes
21 de janeiro de 2015
Recife-PE

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Esperança


Ela já nem amarela. Ela já não há.
Ceronha Pontes
20 de janeiro de 2015
Ainda no Recife-PE

Outros:
AMARELA
AMARELA II

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Sacudindo a poeira...



Querido diário, eu tenho tido vontade de te escrever. Ensaiei voltar ao Baile inúmeras vezes e finalizar a série dançando com Tessa. Revi a película de onde nos conhecemos e chorei tudo novamente, mas, nenhuma linha sequer, ocupada que estou com uma escrita "profissa", meu caro. Dramaturgia, se diz. Sobre isso te adianto que em breve visitarei o Cemitério Central de Montevideo. Não para encontrar a morte, mas para resgatar La Novia. Maiores detalhes adiante, contenha-se.
De outros escritos vim partilhar contigo, pra tirar um pouco do teu mofo, um pedaço de conversa do meu próximo espetáculo, Concerto de Assobios, em companhia do cantor (ele prefere se dizer intérprete) Gonzaga Leal, em homenagem ao poeta Manoel de Barros, a quem as "borboletas imensam". Em verdade trata-se de um musical idealizado pelo queridíssimo Gonzaga e dirigido pelo André Brasileiro, recheado de cantigas de trabalho e  conversas em idioleto manoelês adaptado por mim (pelo menos eu tento), além de nossas próprias memórias, para onde Manoel inevitavelmente nos remete. Segue uma das minhas que deve anteceder um cântico de lavadeiras.


(...)


Ceronha- Ê, Gonzaga, nos tempos de eu bem menininha era tudo tão diferente. Caixa d’água mal havia, as torneiras eram poucas. Era mesmo em pode de barro que a gente fazia render o milagre nos tempos da seca. Eu me lembro da areia do rio seca, dourada. Ali perto da barragem Pedra e Cal, a água que não caía do céu, brotava agora da terra, de um milagre chamado cacimba. As cacimbas, Seo Gonzaga, jorrando água limpinha, pra mó de banhar os meninos, pra cozinhar o feijão, pra lavar os terém, pra lavar roupa também. Pra lavar roupa Dona Bentinha dizia: “Essa água alveeeeja”. Um sem fim de lavadeiras sobre a areia dourada do rio. Tondeca, menino, fazendo sabão de potassa é como ninguém. Agorinha mesmo sou capaz de sentir o cheiro da roupa quarando. Cante, Seo Gonzaga. Pra mó de homenagear Dona Bentinha, Dona Dinoca, Tia Calô, Dona Chiquinha Pindoba, Dona Chiquinha de Seo Herculano, Dona Maria e as lavadeiras tudim do meu Tamboril. Cante, Hômi, demore não. 
(Trecho de Concerto de Assobios, por Ceronha Pontes)