sábado, 22 de maio de 2010

NEGRINHA


Observa a "vã" filosofia que no mundo feliz ou desgraçadamente globalizado já não há tempo para a novidade. E nem antigo há de se tornar o que já brota e fenece tão imediatamente. Descartável.

Pois orgulhosa constato que sou velha. Considerando se tratar de uma conquista que pressupõe a plena experiência do novo. Digo-lhes esta tolice com a vaidade e o lamento também, de quem vive à revelia do tempo de mercado onde, como dizia o menino Cazuza, “sementes mal plantadas já nascem com cara de abortadas”. Começo por esta conclusão para explicar que já me livrei da frustração de não conseguir manter o blog girando na velocidade que o próprio veículo sugere. Ocupo-me do que me exige ou contempla com a eternidade para experimentar.

Desobrigada a postar tão logo tenha a ilusão de alcançar “a coisa”, antes rumino. E finalmente venho compartilhar os arrepios que me causou uma certa NEGRINHA.

Há bastidores que são realmente de se agradecer aos deuses. Conheci Sara Antunes num desses encontros de gente de teatro lá no meu Ceará. Ouvi-lhe falar de um seu espetáculo inspirado num conto do Monteiro Lobato. Menina pequena e pretinha abandonada numa Casa Grande, “casa de açúcar” onde ela amarga os horrores de um veneno cuja ação traiçoeira repercute ainda: A ESCRAVIDÃO. Interessei-me já. Idéia, desejo, coragem de olhar e nos fazer enxergar coisas do viver que muito se pretende largar ao esquecimento. Uma artista, pensei. Compromete-se para além da forma.

Consumou-se a admiração ao vê-la em Hysteria e Hygiene, espetáculos do Grupo XIX, de São Paulo, do qual a atriz fazia parte.

Fim de uma espera. Sara trouxe recentemente ao Recife o seu espetáculo, que ficou em cartaz numa sala do Centro Cultural Benfica, construção erguida há cerca de 350 anos. É da própria concepção desta obra encená-la em casarões antigos. Divididos entre Casa Grande e Senzala, entramos no espaço-tempo, descobrimos os restos de mobília, a ferrugem dos objetos, respiramos o pó, apuramos a vista na escuridão da História, para só então o assombro com o fantasma da sujinha, baratinha, coisinha, sapinha, a bisca, o trapo a cachorrinha, NEGRINHA.

É preta a atriz “branquiça”. Alguém duvida? É preta! E não me valho da tal fé cênica para afirmá-lo. É preta a Sara Antunes, no que ela tem de levar ao palco o que é de sua profunda e absoluta necessidade tratar. E neste momento são muito seus o discurso e as agruras da escravinha.

Nobres blogueiros, NEGRINHA é coisa-ruim, é de se desmamar recém-despejada no mundo, aquele traste. Que importa se tem fome, a peste? Se tem sede, se tem mãe, se tem boneca, se tem amor? Amor? Que sacrilégio! E isto lá é coisa que tenha um bicho preto de cor? Com muita sorte, aquele trapo mau preto pequeno, pinto-gorado, pata-choca, a coruja, o diabo, a NEGRINHA cresceu sob os santos cocres, abençoados beliscões e pontapés e safanões e outras louváveis judiarias de ordem educativa e purificadora, aplicadas por sua sinhá, a “Dona Áurea Cândida, que era uma mulher muito boa”. Horror!

E Sara, ora nos embevece, ora aterroriza com aquela coisinha que de um tudo sofreu na porcariazinha da sua vida ligeira. Com olhos de ver tudo colorido, mesmo sob a fraca luz de velas, NEGRINHA brinca com a platéia jogos de uma ingenuidade comovente. “Ô Esverdeado, que cor tem esse aqui?” E os amarelos e azuis e violetas, rosados, alaranjados, vermelhos, marrons, pretos e brancos também e os sem cor, os sem teto, os sem chão, os sem rumo, os sem eira nem beira, os sem porra nenhuma na bandida desta vida, todos ali, de coração na boca. Eita da vontade de recolher a pequena! Cuidá-la. Dá tempo mais não. “Perdeu, Esverdeado, ocê perdeu!”

A proposta veio do diretor Luiz Fernando Marques, que “trancou” Sara num casarão da Vila Maria Zélia em São Paulo, e a “abandonou” ali cercada de elementos que remetem à atmosfera do conto de Monteiro, alimentando a inspiração de uma atriz que bem escreve o próprio texto seu, perfeitamente cabível na boca de preta sapinha. Não está na grande frase de efeito a força do seu dizer. Toda a História se conta no não entender da pulguinha. E tenho lido avaliações riquíssimas sobre a famigerada Lei Áurea, mas nenhuma de me descontrolar no peito um coração tambor. Pois assim foi quando batia a NEGRINHA com a colher de pau na panela de ferro, transtornada, anunciando o 13, não sei que lá o 13, foi no 13, a Áurea do 13, os nêgo tudo explodindo de alegria e esperança. Vão-se fogueiras humanas a celebrar a tal da liberdade. NEGRINHA perdeu. Não queimou com eles, presa que ficou no abraço sufocante de Dona Áurea. Viu das janelas da “casa de açúcar”, ao longe, as fogueirinhas espalhadas, estrelas de negros. Ficou olhando até que se foram apagando uma a uma, “uns poucos aqui, uns gatos pingados ali”. Escravidão demora a largar.

Em nó se fez esta minha garganta. Arre égua da agonia com ingenuidade da coisinha! Pois acompanhava o movimento de mudança da “casa de açúcar” para a “casa de café”, vendo a “Dona Áurea Cândida, que era uma mulher muito boa”, a separar o de valor para levar consigo. O resto largaria no casarão assombrado. “Cama serve, castiçal serve, bandeja serve, os pratos... Ô Dona Áurea, e a NEGRINHA?” Pensemos em pavorosa resposta ainda não, adiemos o desfecho, pois que a negrinha alguma alegria conheceu, ainda que breve, brevíssima. Vejamos.

Como se fosse sonho (e preto sonha?), apareceu branquíssima sobrinha da sinhá sua dona, passar férias com a tia. Com ela, objeto que esbugalhou os olhos da sapinha, o alumbramento touxe-lhe o queixo ao peito. Nunca tinha visto boneca, a pobrezinha. Que coisa tão impossível de caber na imaginação da pretinha, cuja experiência se limitava a contar de um São Benedito das Neves. “É feita?” Perguntava extasiada. “É menina feita!” E não demorou a ter que tirar suas mãos pretas sujinhas da fina louça da sem vida. Diferente do conto, em que Lobato neste momento se compadece da Sinhá, fazendo-a experimentar uma quase bondade, Sara não lhe favorece com a redenção. Na peça, “Dona áurea Cândida, que era uma mulher muito boa”, não tardou a ensinar à escravinha que meninas feitas, tal qual as nascidas, também se dividem pela cor.

Agora danou-se! Depois de entender que há crianças de levar cocres e outras de ganhar carinhos, crianças de vestir trapos e outras cobertas de rendas, crianças comendo lavagem e outras lambendo docinhos, negrinhas para castigos, branquinhas para brinquedos, ah, NEGRINHA já não era a mesma! Seguindo com Monteiro e apelando de novo para a minha companheira nem sempre "inútil", a filosofia, recordo um Descartes conhecido de todos: “Penso, logo existo”. Foi o caso. Agora dava conta de si e do mundo em que vivia. Finalmente sabia-se infeliz a menina.

No conto, Lobato conta que definhou de tristeza a NEGRINHA: “Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza”. Na peça recebeu-nos morta já. Livre do frágil corpinho sujeito a torturas. Sobrou-lhe, no entanto, a vida longa do espírito cujas marcas ainda doem. Aberta continua uma ferida Brasil, desigual e perversa.

Talvez esperassem que fizesse uma avaliação mais técnica da coisa ou, menos confusa. Posso não. Nem me dei conta do método(por certo que há), que é como um caminho invisível. O percurso de Sara para estar tão NEGRINHA é livre de exibicionismos. Não posso mais do que estar emocionada(emoção tem a sua própria lógica) e atenta aos mecanismos de impedir a liberdade.

É justo ainda dizer que junto a Sara Antunes e Luiz Fernando Marques atua um diretor de arte, um artista Renato Bolleli Rebouças, que extrai do lixo a sua obra. E não como uma comprovação daquela idéia vendida em outros carnavais de que “pobre gosta de luxo, quem gosta de lixo é intelectual”, ora me poupem de comparação infeliz. O buraco é mais embaixo. Um teatro que se faça dos rejeitos de gentes, idéias e coisas, contrariando a sua morte tantas vezes anunciada, resiste exatamente naquilo que só ele é capaz de não deixar que morra. O resto é DESCARTÁVEL como propõe o mercado para o qual sigo de ouvidos moucos.

Salve NEGRINHA!

Evoé.

CERONHA PONTES

Recife-PE, 22 de maio de 2010.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

All you need is love


Casa abandonada este humilde blog. Fina camada de poeira cobrindo o não dito. Traças e aranhas o guardem com amor.
A pessoa tem até vontade de postar, contar as tantas coisas que andam rolando, botar reparo em outras, mas cadê o tempo??? Pensam que estou a reclamar? Não mesmo.
Ensaiando O Amor de Clotilde Por Um Certo Leandro Dantas, espetáculo inspirado nos melodramas circenses. Numa função que não é a de atriz, mas que tem me dado um prazer enorme. Havia um monstro dopado aqui dentro, dormindo forçadamente. Pois aconteceu dele acordar no picadeiro, dar duas piruetas e... Bravo! Bravo!
Eu tou que vibro. Doida de doidice frutífera.
Abraços aos que ainda não enjoaram de nos visitar.
Até breve

CERONHA PONTES
Recife-PE, 07 de Maio de 2010.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Cinema "Paradis"


Élisa (França-1995), um filme de Jean Becker. No Brasil acrescentou-se ao título original o parêntese: em sua honra.

Porque Vanessa Paradis tem olhos nos quais se tem vontade de mergulhar. Porque ele é Geràrd Depardieu. Porque a música tema é do Serge Gainsbourg. Porque... Aaah!!!

"Elisa, Elisa
Elisa saute moi au cou

terça-feira, 20 de abril de 2010

ELES


Crio fantasmas. Recolhi-os ao acaso de minha perdição. Insuspeitáveis. Há os que me acompanham passo a passo, seja pra onde for, sob sol e chuva, sob riso e dor. E os que só vêm ter comigo no escuro. Fiéis, no entanto, estes e aqueles. São de diferentes raças e tempos e lugares e sua convivência nem sempre harmoniosa às vezes me adoece, outras diverte. Numa noite inquieta mais recente, reuniu-se a eles uma Delmira, uruguaya, que assim se apresentou:

"Fiera de amor, yo sufro hambre de corazones."

E desde então não se cansa de atirar-me à face a minha própria fome. Fez-se logo aliada de um outro insolente, um tipo estranho que se veste só da cintura para cima, pelo qual confesso minha predileção, pois sua natureza lhe permite surgir no modo "carne viva" quando queira. E o quer muito raramente, tornando inesquecível cada vez perdida que o faça, me dando de imaginar por mais não sei quantas encarnações. Juntos, Delmira e este outro, têm me enfeitado a janela com girassóis dourados. Por eles, nem importando se durmo, me gusta amanhecer.

CERONHA PONTES
Recife-PE, 20 de abril de 2010.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

FEIJÃO E LENDAS, especialmente dedicado aos tamborilenses.


"Meu amor!
Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem."
(Há tempos, Renato Russo.)


Blogueiros queridos meus, celebrando a estréia da jovem escritora tamborilense Noélia Melo, que acrescenta à literatura infantil o seu História de Circo, lançado amanhã na Bienal do Livro, em Fortaleza-CE.

Nascida pras rodas de poesia, cirandas e cantorias, Noélia é assim que nem uma colherada de doce-de-leite com um "pedacim" de queijo-qualho, que nem siriguela colhida vermelha no pé, que nem um "tibungo" no Pedra-e-Cal, que nem palestrar na pracinha de tarde pra noitinha. É uma jóia, a danada! Pode crer.

Como aconteceu?

A ONG Casa do Conto, criada por escritores e contadores interessados em contribuir para a inclusão social pelos caminhos da leitura, além de trabalhar com jovens da periferia de Fortaleza, propagou-se pelo interior do estado do Ceará, através de parcerias com as prefeituras interessadas. Assim chegou a Tamboril, onde o Secretário de Educação, o Sr. Gilson Mota, reuniu pessoas afinadas com a idéia (Fatinha, Weksslei, Isabel, Noélia e outros bons) e delegou-lhes a dulcíssima tarefa de resgatar o "gostim" das antigas tradições. Pois é certo que lá nos anos de antigamente, em tempos de farta colheita, o povo do sertão se juntava em mutirão e varava noites nos terreiros a debulhar feijão e lendas.

Orientado pelos técnicos da Casa do Conto, nosso bando contador deu com o espanador na poeira de baús sortidos como os de Sitônio Pedro, de Lourival e Totonha, também o de Graças Farias e de quem muito tivesse pra contar. Mistérios do Feiticeiro, assombros da Boca-da Noite, ou de como nasceu ali aquele tambor pequeno, aquele pé de Tamboril. Hômi, Seu Menino, a coisa rendeu!

Saraus bem animados com viola e cantoria, rodas de leitura em torno da foqueirinha, oficinas de contação e musicalização avançaram pelas escolas, despertando na meninada o gosto pelo trancoso e pela verdade também. Referências, horizontes, rebuliço criativo! Isto sim, um poder que nos convém.

Foi quando o Almir Mota, escritor e presidente da Casa do Conto, e também responsável pelo programa de contação de histórias do Centro Cultural Banco do Nordeste(Fortaleza), promoveu uma maratona de contação envolvendo os municípios contemplados com o projeto. A coisa se deu lá mesmo no auditório do CCBNB, na capital.

O tema era O CIRCO.

"Aí eu tive a inspiração" , revelou nossa menina, sobre a sua ficção. Escreveu sobre um circo que visitava a cidade todos os anos. Na ocasião a professora Ritinha (o nome seria uma homenagem à nossa Tia Ritinha?) levava a garotada a pesquisar sobre o tema e montava na sala de aula uma colorida exposição de desenhos e histórias de circo. Daquela vez, quem contasse a história mais divertida ganharia cobiçados ingressos para a matinê, que seriam entregues pelos próprios palhaços ali mesmo, na escola. A novidade assanhou a garotada que ansiosa esperava a visita de Pipoco e Pipoca. Atrapalhados e achando muito difícil escolher entre tantas engraçadas historinhas, os bons palhaços decidiram por convidar a turma todinha.

Pois eu é que não vou contar o resto da história. Só digo que tem trapezista bonita deixando Joãozinho de queixo caído.

Continuando:

Seu Menino e Dona Menina, os senhores me acreditam que depois de muitos livros pesquisar, o bando dos contadores escolheu para apresentar na maratona a história(então inédita) da Noélia? Contaram e deu o maior pé. Sucesso absoluto! Não tô dizendo? Assim foi.

Querem mais? Pois tem.

O Kelsen Bravos, também da ONG Casa do Conto, inscreveu História de Circo num edital da Secretaria de Educação do Estado, para fins de publicação que integraria a coleção Prosa e Poesia, do PAIC(Programa de Alfabetização na Idade Certa), sendo o livro distribuído em todas as bibliotecas das escolas da rede pública de ensino.

APROVADO!

"O Kelsen me ligou dizendo que o livro ia ser publicado e eu perguntei: que livro?"
Desacreditava Noélia, que nem ao menos sabia do esforço do amigo. Agora taí, a menina de Seu Joaquim e Dona Itelvina, ESCRITORA.

E me sinto na feliz responsabilidade de chamar atenção para o fato não apenas por ela, mas por todos os jovens envolvidos. Ainda que não resultasse na publicação de um livro, afinal ninguém é obrigado a se tornar escritor, artista, atleta e tal. Mas é claro que incentivar a garotada, oferecendo-lhe condições para desenvolver seus dons, nos pouparia em desgraça.

"Há tempos são os jovens que adoecem", cantava o Renato Russo.

Sou de me preocupar com o destino da "galera". Me dá um nó na garganta quando sei de uns tantos muito orgulhosamente alardeando que a auto-estima dos tamborilenses foi enfim restaurada por estes mega eventos que levantam a Saia Rodada, exibindo a Calcinha Preta dos Aviões do Forró. E por favor me escutem tal como digo, não mais do que digo. Não é que eu defenda que Seu Menino e Dona Menina e a meninada de plantão devessem se privar de festejos e até dos seus "birinaites". Imaginem!Também a mim apraz uma boa fuzarca. Mas pelo amor de Santo Anastácio, no dia que a "lapada na rachada" for a expressão maior da dignidade de minha gente, desisto de meu enterro no velho Tambas. Demos às coisas os nomes adequados.

Por falar em auto-estima...

A formação se dá por meios menos dispersivos. O conhecimento requer atenção. A sensibilidade se apura nas experiências mais sutis. Quando os dons são reconhecidos, estimulados, bem orientados e encontram meios pelos quais se expressar, é quando de fato temos realizações significativas.

E é por isto que desejo e cobro a continuidade do projeto que deu a Tamboril a alegria de ver a Noélia publicando. Como também desejo ver florescer muitas outras idéias e ações que explorem melhor o potencial das pessoas e lhes acrescente em dignidade.

Preservo a minha fé em cada um dos lá, porque perdê-la seria como desacreditar em mim mesma. Presto-lhes toda atenção e sofro as perdas e comemoro os ganhos. Verdadeiramente. De onde estiver.

Um abraço a todos, cheio de carinho, enquanto fico por aqui a Djavaniar:

"Feito mãe que dorme olhando os filhos, com os olhos na estrada."


CERONHA PONTES
Recife-PE, 16 de abril de 2010.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Abominável encantamento!






(Ceronha Pontes em foto de Velma Zehd)



“O que se sente? O que se vê? Coisas maravilhosas, não é? Espetáculos extraordinários? É muito bonito? Muito terrível? Muito perigoso?”

(O poema do haxixe, Charles Baudelaire)



Atiro-me numa incontestavelmente NOVA aventura, ainda que com ares de cartaz antigo. Inspirado nos Paraísos Artificiais, de Charles Baudelaire e nas Confissões de Um Comedor de Ópio, de Thomas de Quincey (a experiência deste serviu de inspiração para aquele), meu breve solo Um Comedor de Ópio volta à cena. Desta vez “reencarna” em palcos pernambucanos, dentro do Curta Coletivo, projeto do Coletivo Angu de Teatro, grupo que boníssima acolhida me deu no Recife.

Recuperando motivações, reelaborando a cena, potencializando o gestual, a musicalidade, buscando incansavelmente o frescor. Exercício que perpassa emoções diversas. Oscilo. Vacilo. Num mesmo ensaio tanto me dou por segura quanto por vencida. Não me economizo nas alegrias e inevitáveis dores deste nosso ofício. Ao teatro, TUDO! É feito amar.

Poeta inglês que viveu entre 1785 e 1859, De Quincey me acompanha há dez anos. Sua obra (e de Baudelaire), sua história, vício e ternura, suas agruras, ironia, inteligência, sabedoria, sua força e grande sensibilidade me ensinaram muito. Com ele (ou eles) vou acrescentando ao meu viver e "teatrar". E tudo começou quando, identificada com o corajoso e contundente discurso de Charles, isento de qualquer moralismo ao tratar do consumo de substâncias entorpecentes, me encantei especialmente com a parte dedicada ao ópio, por revelar impressionante conflito de genial poeta (Quincey) que experimenta, pela ação do ópio, a expansão de sua mente brilhante em detrimento de seu corpo, até chegar a um ponto em que um já não serve de morada ou expressão para o outro.

“Horrível situação! Ter a mente fervilhando de idéias e não poder mais atravessar a ponte que separa os campos imaginários do devaneio, das colheitas positivas da ação! Se aquele que estiver me lendo agora conheceu as necessidades da produção, eu não preciso descrever o desespero de um espírito nobre, clarividente, hábil, em luta contra essa danação de caráter tão particular. Abominável encantamento!” (Charles Baudelaire)

O comovente relato de Quincey (opiômano assumido) ilustrando o pensamento de Charles resultou irresistível para esta alma curiosa da sede humana por extinguir a dor e alcançar a felicidade plena. Além disso, o interesse estético movido pela beleza da composição de Charles e Thomas. Como construir UM CORPO QUE NÃO COMPORTA A MENTE? Isto muito atiçava a atriz que vos fala e que depois de dez anos ainda se perturba com o mote. Com exatos dez quilos a mais dentro do mesmíssimo surrado figurino e alguma paciência adquirida, me aplico nesse laboratório “antigo” à procura do que ainda não sei, dos signos que não consegui desvendar ou traduzir, reescrevendo mais uma vez em meu "corpo-cavalo" este poema chamado Thomas De Quincey.

A adaptação do texto “invade” também As Flores do Mal, de Baudelaire, bem como as suas impressões sobre a atuação do haxixe e do vinho no espírito humano, tratando ainda dos Paraísos Artificiais.

Oh, mas não esperem de Charles, Thomas e nem desta abusada que ousa intimidade com eles, acusar imediatamente o ópio. Antes ele encontra em NÓS (nem eu me agüento de tanta pretensão), DEFESA APAIXONADA. Acredito inteiramente que uma discussão respeitável e frutífera acerca de substâncias desta natureza, não pode ignorar-lhes os “benefícios”. A imensa alegria que provoca e o poder que tem de tornar infinitas as possibilidades de criação e de elevar tão alta a capacidade de sonhar, não serão combatidas com a ignorância e melindres de ordem moralista. E fique claro feito água mineral, não estamos entrando aqui (pelo menos não ainda) na atual e complexa questão do narcotráfico. Nos prendemos, e que isto nos acrescente algo de bom, ao drama de De Quincey ao admitir-se inerte, tiranizado pela alegria provocada pela substância que lhe aplacou a dor no estômago e o rendeu pela sucessão de alívios e fertilidade que proporcionou ao seu espírito. Tratamos de seu esforço sobre-humano para livrar-se de tão delicioso quanto perigoso império.

E o que diz a seguir o Baudelaire sobre a sagrada bebida, bem se aplica ao doce veneno da papoula.

“O vinho é semelhante ao homem: nunca saberemos até que ponto podemos prezá-lo ou desprezá-lo, amá-lo e odiá-lo, nem de quantas ações sublimes ou de delitos monstruosos ele é capaz. Não sejamos pois mais cruéis com ele que com nós mesmos, e tratemo-lo como nosso igual.” (Charles Baudelaire)

Evoé!

CERONHA PONTES

Recife-PE, 24 de março de 2010.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Brutti, sporchi e cattivi.

Meu mindinho esquerdo por uma VONTADE!

Quando falta a desgraçada da vontade é uma m...
Abre aquele buraco dentro da gente e é tão largo e fundo e escuro que pensamos não vai haver em nós vida suficiente para preenchê-lo. Oxe, tenha medo!

Enquanto escalo meu abismo particular e nada tenho a dizer que seja encorajador, muito sem cerimônia continuo alimentando com empada alheia esta ponte entre nós. Imaginem que tenho estado em companhia do Ettore Scola. Afinal, mesmo empacada na lerdeza, insisto bravamente.

Pra quem ainda não viu, aguente: FEIOS, SUJOS E MALVADOS. Deixo um link aperitivo.


No mais, "só lhe digo uma coisa: eu não lhe digo é nada".

Até...

CERONHA PONTES
Recife-PE, 19 de março de 2010.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Amori Fragili











(Penélope Cruz e Sergio Castellito)


"Minha vida foi sempre assim, repleta de pequenos sinais a mim destinados."


Na falta da inspiração rasinha, hoje deixo apenas e tão apenas a "sugesta" de objeto bem mais recente do meu bagunçado e eclético baú. Acho que já vi esta película mais vezes do que a amiga Joysi viu Tomates Verdes Fritos.

Apesar de lances estranhos metidos a sobrenaturais , os quais me tiram um pouco a concentração, gosto desse tipo de cenário que abriga criaturas cujos desejos e tormenta interior a superfície das convenções não comporta. A vida escorrendo à revelia do desejo. O fio frágil que se rompe. Invariavelmente.

NON TI MUOVERE

Romance de Margaret Mazzantini, transposto para o cinema pelas lentes de seu marido, o ator e diretor italiano Sergio Castellitto que divide a cena com Penélope Cruz, atriz para quem este filme cai tão bem quanto a sua coleção de Almodóvar. Aliás, nunca entenderei, entre outras coisas, a aventura bizarra de Cruz ao lado da Salma Hayec no desprezível Bandidas.

As belas e premiadas atuações de Castellito e Penélope valorizando uma trama que tem ainda em Claudia Gerini outro bom motivo para ser vista. Sem falar na música do Vasco Rossi (Un Senso) que adoooro cantar(?) no banheiro. "Anche se tante cose un senso non ce l'ha".

Aos que não assistiram, melhor desconsiderar qualquer vídeo que encontrem dublado em espanhol, bem como o trailer vendido nos EUA. Não dizem do filme.

E eu já tou falando mais que homem da cobra.

Link bacana de cena tocante:

Fui.


CERONHA PONTES
Recife-PE, 15 de março de 2010.

quinta-feira, 11 de março de 2010

SI TU NO ESTÁS...


Hômi, Seu Menino, foi um SUSTO entrar na internet e dar de cara com um passado daqueles que de tão passado ficaria pra sempre na poeira do esquecimento, não fosse um determinado site dar como certa a ressurreição do fantasma. Trata-se de Roy Rossello. Ele mesmo, um dos cinco rapazes mais adorados dos anos oitenta, os porto-riquenhos que compunham o grupo MENUDO. Pois vocês me acreditam que o moço (tá mais pra senhor, já) está morando bem aqui em Salvador? Achou de lançar na Bahia (porque será?) a Banda Parayzo, ao lado de uma cantora loura e popozuda que atende pela alcunha de Valéria Flor do Sereno. Olha que eu fiz o meu esforço, juro a vocês, mas a foto da dupla não deixava dúvida de que minha relação com Roy datou meeeeesmo. Ficou lá no tempo da imagem cuidadosamente escolhida para ilustrar amoroso post, na qual Roy aparece abaixo, à direita.

Fui, confesso, ME-NU-DE-TE. Com direito a possuir desde os discos (vinil, é óbvio) a todas as bugigangas que estampassem as caras de Robby, Roy, Ray, Charlie e Ricky. E este último ainda nem era o Martin, pois alcancei o seu xará antecessor, o Melendez.
[...]
Interrompi a escrita e fui ao youtube buscar clips dos meninos. Que lombra! Adolesci total. Suada não, cão! Affe, da cearensidade da pessoa, dançando e cantando com eles, bora negrada, IEEEEI!

“Não segure muito seus instintos
Porque isso não é natural
Sai do sério, fala alto, dá um grito forte
Quando queira gritar
É saudável, relaxante, recupera
E faz bem a cabeça
Por isso canta, dança, grita, ô ô ô ô.

Não acredito que ainda não reconheceram o hit. Sigam-me os bons.

“Não se reprima,
Não se reprima,
Não se reprima.”


Uhu!!! Quem diria que décadas depois (socorro!) eu fosse executar esta ge-ni-al coreografia com a mesma desenvoltura dos tempos em que o fazia vendo os garotos se apresentarem no programa do Chacrinha? Menino, dançava eu e dançava a Terezinha e mais tudo quanto é menina do redondo planetinha. Pode crer, febre geral, epidemia. Não se Reprima era a expressão da nossa rebeldiazinha furreca. Ô vazio! Mas hoje não tou a fim de papo cabeça, minha gente. Los niños del Menudo trazem dulces recordações que nada tem a ver com o tremor no Chile, massacre na Nigéria, terror no Iraque, corruptos Brasis e outros temas que insultam esta abusada que vos fala.

Menudo traduzia o primeiro olhar, o doce beijo, o brevíssimo amor eterno aborrecente. E é impossível não me reportar a Tamboril-Ce , minha cidade derramada aos pés da Serra das Matas, cenário perfeito para um primeiro namoro cuja excelente qualidade garantiu a exigência aplicada nas escolhas posteriores, com algumas exceções das quais ninguém se livra. É sabido por todo o Tambas e redondezas que o Evandro Francelino (amigo, desculpa a exposição, mas...) era o dono dos meus suspiros ritmados pelas pérolas menudianas.

“Passo os dias sonhando acordado
E de noite eu não posso dormir
Teu amor em meu peito guardado
Eu só quero ficar do teu lado
E na hora de estudar eu só faço me lembrar
Deste sonho tão bonito que vivi
Este amor é a coisa mais linda que já senti.”


KKKKK!!!!! Blogueiros queridos meus, hoje eu tou que é puro clichê e em verdade vos digo: RECORDAR É VIVER.

Na seqüência, como era de se esperar, Menudo pôs-se a me consolar do primeiro pé na bunda. Dramalhão, né? Foi um tal de chorar ouvindo centas vezes seguidas a doce voz de Robby Rosa a suplicar em meu lugar:

“Please be good to me
Don’t let me cry anymore
Hold me like you did before
Just a little means so much.”


Em vão. Oh mundo, digo, Evandro cruel! E tudo entre nós até hoje, sob as bênçãos do Menudo, ficou na base do “quero ser o amigo que está sempre em seu caminho”. E somos. E estamos.

Antes que exploda o ego do meu querido exaustivamente citado, e também pra não abusar da compreensão do digníssimo cônjuge que felizmente não faz a podre linha “bofe ciumento”, devo dizer que o Menudo foi, SOBRETUDO, a trilha de uma necessária despedida da qual jamais me curei. Pois o quinteto estava no auge quando deixei o velho Tambas, verdadeiro protagonista deste post provocado pela aparição de Roy Rossello. Minha terra cuja lembrança ora me adoça, ora me torna um purgante de ser. Mais não conto. Não hoje. É que fui ficando molinha do coração depois que esfriou o suor despendido na dança de Não se Reprima.

Segue o link com o mais afinadinho dos cinco, enquanto me despeço com as faces salgadas por um choro bom.
http://www.youtube.com/watch?v=5c-bsHCM6RI

Desafio meninas com mais de trinta... e cinco a me atirarem a primeira pedra.

CERONHA PONTES
Recife-Pe, 11 de março de 2010.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

AMAVISSE














Hilda Hilst



Sinto não ter habilidades de poeta, coisa que gostaria de ter sido. Adoro o bom poema. A forma enxuta que comporta o ser inteiro.
Como nos últimos dias esta escritora voltou a desfilar com seus cães(prefiro rinocerontes) e vozes de mortos pelos meus pensamentos, povoando a doce solidão descrita no post anterior e promovendo feliz sintonia com o amigo e diretor de teatro Marcondes Lima, espalho uns versos nos quais me reconheço:

"Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:

De redes e de anseios inundada."

(Amavisse/1989, Hilda Hilst)

Me rendo à sua poesia e sua Lori Lamby me tem aos pés.
http://www.youtube.com/watch?v=NHbIroGHS50

CERONHA PONTES
Recife, 25 de fevereiro de 2010