domingo, 6 de abril de 2014

LIBERDADE



Tal e qual em alguns recantos do nosso litoral nordestino, a Cuzco de vitrine, pra turista tonto ver, pertence ao Estrangeiro. Seus lindos restaurantes, hotéis, lojas: do Estrangeiro. Aqui o Estrangeiro compra uma montanha inteira para saquear seus recursos e então devolve aos nativos uma terra onde sequer uma batata crescerá. Dessas coisas é capaz o Capital Estrangeiro.
É EFRAIN, um hom
em simples, descendente dos Incas (seus pais nunca falaram espanhol, mas quechua, a língua Mãe), quem nos faz admitir que não avançamos do estado de Colônia. E é também Efrain quem nos dá outra lição de resistência e dignidade. Conta-nos a história de sua família "sin economia". Diz de sua hermanita levada por um médico e sua esposa, que juraram tratá-lá como filha, mas obviamente alimentaram uma indiazinha escrava do lar. Nos conta como cresceram os outros filhos em meio às platações de té. De como conseguiu estudar e ainda cursar um ano e meio de belas artes. Também não teve "economia" para concluir o curso, e etecéteras provocadores, além de comoventes. Alguns em quechua, a língua da qual muitos cuzqueños, ou antes peruanos, se envergonham, porque restou como língua de gente simples camponesa e só agora, tardiamente, adotada em algumas escolas. Foi uma longa conversa com este homem cuja autoestima não o faz duro, mas gentil, seguro, digno. Enfrain, em sua simplicidade, inteligência e doçura, é o tipo do homem com quem o colonizador não pode. Efrain é um homem que não se deixa seduzir pela cara plastificada do Estrangeiro e suas promessas. O coração e o sangue de Efrain não são corrompíveis. Efrain é um livre e resistente e muito honrado descendente do povo Inca. A Efrain não importa a riqueza conforme o conceito do Estrangeiro. A ele e aos seus, importa que Pachamama* seja respeitada e dela tenham o que lhes faça viver. Viver é muito. Viver com liberdade é muito mais.

Ceronha
Cuzco, Peru.
05/04/2014

* Pachamama é terra, em quechua.

O instrumento dos anjos.



Sabe quando o Outro te surpreende, encanta, impressiona e emociona, de modo que a ti não te resta senão enfrentar teu próprio abismo? Foi assim hoje conversando com o Mestre Sabino. Artesão cuzqueño, que confecciona instrumentos musicais. A cultura Inca por quem a carrega no sangue e na alma, por gerações e gerações. E ainda ouví-lo, e ao seu filho, tocar instrumento andino raríssimo, por pouco não extinto. Foi uma aula de resistência, carregada de ternura. Suas mãos de aparência rude, mas cuja delicadeza ensinando as minhas, tão inábeis, a lidar com as cordas, da ordem do inequecível. 


Um extra gracioso:

(Ele tocava.)
- Señor Sabino, que cosa tan bella! Cómo se llama este instrumento?
- Marimacho.
Es una palabra en quechua?
- No, no. Sabes que es lesbiana?
- Por supusesto que si!
- Entonces, Marimacho.
(Eu rio. Ele explica.)

- Este instrumento no tiene genero, por esto Mariamacho.
(Eros intervém.)
- Como los angeles, que no tienen sexo.
(Elegi então meu instrumento e o ganhei de presente. É de cordas, como um violão. Só que andino e raríssimo. E tem nome que contempla meninos, meninas, anjos e quem mais.)


Ceronha
Cuzco, Peru.
04/04/2014

quinta-feira, 27 de março de 2014

Conga, monga.


A vida se repete enfadonhamente. A gente vai trocando de papéis, mas, as histórias, iguais. As de amor então, pra matar no cansaço. E nós, tolos de fazer dó, seguimos senão acreditando, na esperança de voltar a. Não adianta vir com esse papo de transitoriedade pra cima de Cecé. Tudo igual. Ok, admito a única e minúscula diferença de que a esperança hoje anda se alimentando de curtidas.Triste, né? Uma curtida perdida e a criatura namora, casa e adota uns pirráia.
Fui. Tomar chá de coca lá em Cuzco, na esperança (olha a medonha aqui "tra veiz") de que o pouco oxigênio seja aliado na reconstrução deste ser desanimado que fala sozinho.
Como diz o primo Ed: só Maria Odete* salva. Pois então conga, oh rainha, e "afasta de mim este cálice".

*Maria Odete, a Gretchen.


sábado, 22 de março de 2014

Chutando as paredes, o balde e o pau da barraca.


Não é a primeira vez que posto.
A-DO-RO!!!
"Se non ha un senso", mande ver, Vasco.
E o guitarrista querendo vir ser lindo desse jeito aqui em casa , a gente deixa



E tudo começou quando ouvi o Vasco cantando num filminho que já me acabei de postar também. Não me cansarei jamais de assistir. Identificação total com o Timóteo, do Sergio Castellitto.

Ceronha

quinta-feira, 20 de março de 2014

"Chutando as paredes"


Recentemente obrigada a pensar, conceber, escrever para fins que não este blogzinho marromeno desnutrido, o coitado, aí foi que eu fiquei esgoatada mesmo. Sem ter o que oferecer aqui.
Felizmente tem uma gente que eu gosto que vai me traduzindo sem o saber. O clip de hoje é do filme da querida Lívia Guerra, toda toda muito talentosa. É contigo, lindona.



quarta-feira, 19 de março de 2014

HOJE


Bater perna sob o calor do Recife até gastar o que me impede. Até quem sabe esbarrar numa inspiração.
Zaz me acompanha com versos sobre o que muito mais duramente começaria o poeta Carlos: "tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo."




quarta-feira, 12 de março de 2014

O mel da boca


Aquilo era tão triste!
Disseram que foi um coração que, cheio de amor, mas desprovido de atrevimento, explodiu.
E ainda tinha o Tom Zé fazendo alarde no cortejo.




terça-feira, 11 de março de 2014

Sinceramente



Tem coisa que eu realmente gostaria de ter escrito. Mas que ousadia! Verdade é que quem nasce pra uma Ceronhazinha de nada nunca chegará a ser Tom Zé ou Sérgio Sampaio. Cante aí, meu adorado maldito. E nunca se cale, por amor dos deuses todos. Os simpáticos, eu digo.




quinta-feira, 6 de março de 2014

De Frederick para Vladímir.


Se contenho a minha raiva, enlouqueço. Deixa-me pois esmurrar a faca, caro Vladímir. É a mim que machuco, não temas por Mia. Nela, outra ferida eu jamais abriria, além das devidas à sua consciência. Ela não poderá sair desta situação do mesmo modo inconsequente com que estabelece todas as suas relações. Sim, seu estilo há muito se repete. É um bem que lhe faço, juro. Crês que a ela, ou a qualquer outra pessoa seja favorável viver de apurar um poder desagregador? A que desfecho estará sempre condenada se continua a investir em tramas como esta? Cercando, controlando, manipulando, desrespeitando afetos tão longamente cultivados?
Sorrateira se achega. É de repente que percebemos sua presença lânguida. Sempre e de tal modo ali, a ponto de se tornar necessária. De repente, amigo, me dei conta de não saber fazer nada sem ela, que se enfiou na minha vida e foi cortando um fio aqui, desviando outro acolá, se amarrando noutro adiante, enfim, me despojando de meus afetos outros. E sem qualquer constrangimento, nem senso algum de responsabilidade. Depois de tudo ainda afirma chorosa que "não sabia" como dizer, prevenir, proteger-me do mal.
Não que seja uma pequena difícil de ler, oh poeta. Não é uma Lila Brik. Muito mais facilmente decifrável, a Mia. Mas é tanta doçura envolvendo o vil intento que mesmo eu acabei por apostar que em algum momento aquilo tudo se converteria em outra verdade. Aprazível verdade. Cheguei a inventar Deus, e Ele me garantia o direito e me abençoava a entrega.
Pesa-me a culpa por reduzir a cocô a minha inteligência, diante da beleza de uma pequena cheia de fogo e astúcia. Tu conheces o que arrisco e ainda não estou em segurança, longe disso. Te agradeço por me dares abrigo em tua sublime poesia, Vladímir. Neste momento são estes os versos teus que afogo:

Entraste. Brusca como um desafio.
E amaçando a camurça das luvas
disseste:
- Sabes? Vou me casar.
- É?
Pois bem, casa-te!
Não faz mal.
Agüentarei o golpe.
Não vês como estou calmo?
Dir-se-ia o pulso de um morto.
Te lembras deste teu lema;
"Jack London, dinheiro, amor, paixão"?
Desde então foi o que vi:
tu és uma Gioconda
que é preciso roubar!
E afinal te roubaram.

Adivinho que ela não esteja feliz. Também dela a vida cobra. Quem escapa? Aprenderá com isso mais que finalmente se livrar de animal tão rude feito eu, meu amigo? Ou não aprenderá coisa nenhuma e seguirá repetindo seu jogo como uma viciada? Ah, querido poeta, contando que eu mesmo sucumbi a esses artifícios novamente, que posso exigir de uma criança vaidosa, não é mesmo?

Um abraço cheio de vergonha deste teu devotado,
Frederick.

(Por Ceronha Pontes)





quarta-feira, 5 de março de 2014

Já não é carnaval


Lendo Maiakóvski:

Por toda parte
andei dizendo que Deus não existe
e Deus, de tórridas profundezas, fê-la sair,
aquela diante de quem
a montanha se perturba e treme,
e me ordenou: Ama-a!

Deus ficou contente.
No fundo do abismo
que há sob o céu
um homem atormentado
como um selvagem definha.
Deus esfrega as mãos.
A si mesmo, diz:
Hás de ver, Vladímir!

E cobiçando esta elegância: