terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Eu sem você...
Ele, num cômodo distante, com a mão na "agulha":
- Céééé, a gente tinha mesmo quantos aaanos?
- Vinte e trêêês.
- E agooora?
- Beirando os quarenta e uuuuum.
- Eita, minha filha, que você me deu os melhores anos de sua viiiida.
- E quem te disse que os anos que eu te dei foram os melhoooores?
- Bufo! Pois escute esta que Nãoseiquemzim oferece a um alguém das iniciais C-A-P-O e só não diz o nome pra não fazer confusãããão.
- Maaaaanda!!!
Ceronha Araújo Pontes de Oliveira
Recife- Pe, 07 de janeiro de 2013
domingo, 6 de janeiro de 2013
Reencontro
Exatamente como reencontrar um grande amor, pelejo para reaprendê-la.
Carregada de tudo quanto acumulei na distância, chego ansiosa, pesada, ruidosa, dura, um desastre!
Com a sutileza de uma britadeira avanço sobre sua frágil figura. Atravessamos a crosta. Estamos exaustas.
Aqui, nas camadas mais finas, ela se compadece e me confia o cinzel com o qual entalhar minha própria carne. Generosa e pacientemente, vai me ensinando toda a intensidade, toda a beleza que há no molto pianissimo.
Ceronha
Após seis anos da apresentação de despedida do Ceará, no palco do Thetaro José de Alencar, CAMILLE CLAUDEL, um espetáculo de Ceronha Pontes, tem reestreia prevista para março, no Teatro Glauce Rocha, Rio de Janeiro.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Ao futuro, Dolores.
Ouviam Dolores Duran. Não que estivessem tristes, muito pelo contrário. A tristeza, por Dolores metamorfoseada em beleza, era perfeitamente adequada ao instante.
A mesa estava bonita, ainda enfeitada com as flores da véspera. A comidinha suave sugeria delicadezas. Bebiam naquelas taças enormes, que são a predileção dela. O mundo parecia em paz. Vez em quando davam-se brevemente as mãos. Preferindo isto a falar.
Foi assim até que os versos de Castigo arrancaram dela um risinho e um suspiro, não sei exatamente se de malícia ou sabedoria, e então precisou do verbo.
ELA- "Eu tive orgulho e tenho por castigo, a vida inteira pra me arrepender". Era assim que se fazia música. A gente vem piorando, meu bem.
Dolores segue:
"Se eu soubesse
Naquele dia o que sei agora,
Eu não seria esta mulher que chora,
Eu não teria perdido você".
Ela ri de novo. Desta vez um riso escancarado, seguido pelo dele.
ELE- E pensar que isto já foi popular.
ELA- O popular do presente não permitirá ao futuro reunir pessoas em ambiente tão delicado. Medo grande do que virá desse tchu, tchá, tchá. Nunca te cales, oh, Dolores!
Próxima faixa: Ternura Antiga.
Próxima faixa: Ternura Antiga.
Ceronha Pontes
Recife-PE, 03 de janeiro de 2013
domingo, 30 de dezembro de 2012
Tal como se escreve
Para Eros Oliveira
Vestida apenas com os óculos, as pernas misturadas com as dele, que, atento, lhe escuta a leitura de Clarice e Eduardo.
Ao final das primeiras crônicas e contos, ela o procura por cima dos óculos, reafirmando a cumplicidade.
Está claro que Eduardo os traduz melhor. Ela sabe, por exemplo, que ele vai gostar de O mundo e A pequena morte. Na mosca!
Depois de A noite/1 ele ri muito e confessa que a tem atravessada entre as pálpebras e na garganta, e ela é toda vaidade.
Seguem.
Celebração das contradições/1. Breve silêncio.
Na de número dois*, é quando ela fecha O livro dos abraços, e ele bate suavemente as mãos num respeitoso aplauso. Acreditam absolutamente no que está escrito.
Ceronha Pontes
30 de dezembro de 2012
*Desamarrar as vozes, dessonhar os sonhos: escrevo querendo revelar o real maravilhoso, e descubro o real maravilhoso no exato centro do real horroroso da América
Nas terras, a cabeça do Deus Elegguá leva a morte na nuca e a vida na cara. Cada promessa é uma ameaça; cada perda um encontro. Dos medos nascem as coragens; e das dúvidas, as certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possível, e os delírios, outra razão.
Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia.
Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo.
(Celebração das contradições/2 - Eduardo Galeano)
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Ariela
Eu nunca entendi que a juventude lhe tenha sempre causado estranheza. O frescor da própria carne lhe apavorava, me lembro. De cedo atraída por espíritos velhos. Inclusive os velhos que morriam moços. Fui apresentada a alguns e tenho apelado pra estes. É, porque se não fazemos alguma coisa, o mínimo que pode acontecer é ela ficar bem feia de rancor.
- Vem tomar um refresco, Ariela.
Nem sinal. Insisto:
- Olha, aquele magrelo que tu gostas tá querendo botar o bloco na rua, que tal?
Em vão.
- Ele tá dizendo que não adianta, você ouviu?
Nada.
- Tome aqui, Seu Menino. É Sérgio, né? Uma cervejinha e o violão. Convide o Senhor mesmo. Só não vá lhe dizer que está chumbada, arreada, aquelas coisas. Faça-lhe uma graça. Quem sabe?
Ceronha Pontes
21 de dezembro de 2012
Leite derramado
Sempre atrasada no choro, a Dorinha. Fica juntando soluço até explodir. Que susto! Tanto tempo faz.
Era menino ou menina?
Ceronha Pontes
21 de dezembro de 2012
Enviesada
No dia em que o mundo não acabou, amanheci "A palo seco, o coração ainda "Noturno" e "Meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem".
Que cante o meu querido Rodger Franco de Rogério, me rasgando em tiras o coração.
Bisonha,
21 de dezembro de 2012
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Meu caminho
Sou de guardar pra sempre quem me ensina.
Esses dias, em cartaz no Rio de Janeiro, me alegrei como
há muito não acontecia. Há doze anos não abraçava o inesquecível Professor Clovis Levi, que estava morando em Portugal. Uma felicidade ele ali, na plateia daquele Glauce Rocha muito conhecido seu, com a sua Pamela.
Aproveito pra postar outro momento precioso que acabo de revisitar nos meus arquivos. Cozinhando com meu mestre Celso Nunes, no seu antigo ap., em Floripa.
Como não fariam de mim uma criatura melhor, tais valores e afetos?
Ceronha Pontes
19 de dezembro de 2012
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
"Morna e ingênua"
"A poesia não é de quem escreve, mas de quem precisa dela", disse o carteiro ao Neruda naquele filme antigo e desde então me sinto mais livre por entre os versos que falam de mim, mesmo que por outros escritos.
Hoje a Vovó, que nos deixou
em maio passado, faria 95 anos. Lúcida, inteligente, bem humorada. No comando até o fim. Quando se chega a "gente grande", se entende que nunca mais se é feliz nem triste assim, um de cada vez. Vive-se o tempo todo alegre e triste ao mesmo tempo agora. Triste por isto, alegre por aquilo outro.
Triste porque sem ela e sem o Papai minha família diminuiu drasticamente. Quem me amou mais do que eles? E justamente por isto FELIZ. Este amor que é minha fortuna e meu Norte.
Então o Cazuza, meu ídolo exagerado, escreveu este POEMA pra sua própria Avó. Ou seria pro Avô? Não lembro direito, nem faz diferença. "Caju" não teve tempo de cantar o que o Frejat musicou, o Ney cantou e eu tomo pra mim e ofereço à minha Vó Totonha. Com "todo amor que houver nessa vida".
Triste porque sem ela e sem o Papai minha família diminuiu drasticamente. Quem me amou mais do que eles? E justamente por isto FELIZ. Este amor que é minha fortuna e meu Norte.
Então o Cazuza, meu ídolo exagerado, escreveu este POEMA pra sua própria Avó. Ou seria pro Avô? Não lembro direito, nem faz diferença. "Caju" não teve tempo de cantar o que o Frejat musicou, o Ney cantou e eu tomo pra mim e ofereço à minha Vó Totonha. Com "todo amor que houver nessa vida".
Ceronha Pontes (Cecé)
18 de dezembro de 2012
P.S.: E ontem fez 18 anos longe do Papai.
domingo, 2 de dezembro de 2012
BONECAS (continuação)
- DESESPERADAZINHA, a boneca que já vem com cartelinha de Rivotril, dizendo qualquer coisa:
Não é o tamanho da fonte que determina que uma letra seja maiúscula ou minúscula. Por exemplo, podemos escrever "desistir" com um d minúsculo bem grandão. E "NADA A VER" todo em maiúsculas de tamanho pequeno. Sentido faz a coisa no seu devido lugar.
- Achincalhada, VINGATIVAZINHA, a boneca que já vem com "o Cão no couro", decidiu abandonar o fogão. Seu projeto agora é "costurar pra fora". Especialidade: BABADO. E eu soube de fonte segura que ela não dá ponto sem nó.
- Enredada no entretenimento e no consumo, desperta ULTRAPASSADAZINHA, a boneca que já vem com radiola e disquinhos de vinil, assombrada por um desejo datado: "Ideologia, eu quero uma pra viver".
Ceronha Bisonha
Recife-Pe, 02 de dezembro de 2012.
http://www.youtube.com/watch?v=AuZ6ubVXOoo&feature=share&list=PL063A5C416C3D6370
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