domingo, 8 de julho de 2012
A CURA
Um ano depois da sua amada M, o Velho G nos deixou. Bem quando eu já não me aguentava mais no papel de fodona, que não arreia das canelas nem a pau. Neste momento sou da opinião que não é vergonha nenhuma a pessoa ficar aos cacos. Estou.
Da penúltima vez que nos vimos ele parecia por demais cansado disso tudo. "Não estou sarando", afirmou sério, dolorido. Desconcertada, desandei a falar besteira. Tem coisa mais constrangedora que mentir esperança a quem se quer bem? E pra quê? Ele mesmo havia, há muito e sinceramente, desistido. Por razões de minha absoluta compreensão. Sei como é fazer morada no outro e não me gabo. Antes, tenho é medo de experimentar perder a "casa", ficar ao relento.
Última vez estava sereno. Da janela me atirou um beijo. É tudo.
Ceronha Pontes
Recife-Pe, 08 de julho de 2012
Para G e sua M, com amor:
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Carta ao Poeta
"Voemos, poeta,
à altura das águias.
Cantemos para espantar as trevas do mundo."
Maiakóvski
Vladimir, meu velho amigo, espanta-me não encontrar em ti o alento habitual. Tu, entre aqueles que me dão de fantasiar grandezas em mim, porque me faltas? Assim, consciência absoluta de vexatória pequenez, apavoro-me.
Se ao menos eu acreditasse em que a felicidade é questão de enxergar no outro uma dor além. Mas acontece que, mesmo não sendo da tua estirpe (como eu gostaria!), jamais estive em posição tão mesquinha. Oh, por piedade, não me desminta!
Não existe dor alheia, felicidade alheia. Uma e outra, nas suas infinitas faces, me pertencem. Que seja de um modo tão menos relevante de como mobilizam a ti e aos teus, é o que tenho. Extremos para onde somos, os tolos, atraídos. Quanto mais descompensados, mais vivos. Vamos escapando.
Pois eis que me canso deste vaivém sem convincente justificativa. Já não me inspiram o gozo ou a agonia, em sua expressão maior ao meu alcance, embora respire por estes, senão por fé, por pavor de me ver de repente sem conexão ou identidade, como me acostumei a compreendê-las. Não aprendi nada além de habitar os pólos. Até quando?
Tuas palavras, Vladimir, as mesmas palavras, nenhuma fora do lugar, porque diabos não me respondem mais?
Creia, a desesperança é ameaça demasiado grave para não ser respeitada. Luto.
Ceronha Pontes
Reccife-Pe, 06 de julho de 2012
domingo, 1 de julho de 2012
Ironias íntimas
Ele- Querida, chega de ficar vendo novela. Pelo bem da criança¹, precisamos mudar nossos hábitos. Pensei em deixá-lo na sala...
Ela- Dentro de uma jaula.
Ele- Que seja. Vendo filmes em diversas línguas, que é pra ir habituando o ouvido. Alemão, francês... Inglês ele aprende comigo mesmo. O espanhol e o russo² podem ficar com você.
Ela- O italiano também é contigo, pois a única coisa que sei dizer na língua é: va fa in il culo³.
Ceronha Pontes
01 de julho de 2012
¹ Não têm filhos.
² Tirando onda porque ela adora falar de uma certa professora russa que teve.
³ Em cearês se pode dizer "ai dentro!". Maiores esclarecimentos o moderador não permite.
Na Praça
Ainda que se exponha num blogzinho furreca recheado de meias palavras, pior, que se exiba e revele no palco sem nenhum aparente constrangimento, não se iludam, esta que vos fala é um tipo acabrunhado.
Não sei, juro por meu Santo Anastácio, não sei mesmo por qual merecimento (e sou toda agradecida) a vida me aproximou de figuras da maior importância por seu fazer artístico, que por sua vez decorre de sua natureza humana da melhor qualidade. Ah, porque eu mesma, assim, por minha própria conta, nunca teria coragem de abordá-los, dizer-lhes o que sinto frente à sua obra e pessoa, quanto mais ganhar-lhes a confiança, o conhecimento de minha existência. Não eu, que muitas vezes fiquei foi muda, inerte, apavorada no contato com uns desses. Nuances de uma auto-estima comprometida, mas isso não vem ao caso.
Só pra ilustrar, há alguns anos, quando fui viver na região da tríplice fronteira (Brasil-Argentina-Paraguai), fiquei sabendo que um diretor teatral e seu grupo desenvolviam trabalho de alta relevância estética e política ali em Asunción-Py. Fiquei doida de curiosidade, saber sua história e tal. Meu marido então descobriu contatos, providenciou viagem e ainda serviu de mediador enquanto eu roía as unhas dentro da cabine telefônica (já em terras paraguaias) de onde ele teve a primeira conversa com o referido artista. Assim, pá-pum:
"Hola, que tal? Nosotros somos una pareja de brasileños e bla,blá,blá..."
Quando dei por mim, estava já na sala da casa do cara, fazendo o jogo do invisível enquanto meu digníssimo cônjuge, sorrisão estampado, papeava feito fosse desde a infância. Demorou para que o moço percebesse que a interessada era eu. Ele é de fato grande e rara criatura. Seu trabalho, magnífico! Os desdobramentos foram os mais felizes e reverberam ainda, agora e sempre, mas, entendam, por pura sorte minha de ter um companheiro desencanado e de bem consigo.
Tais revelações, por certo de nenhum interesse dos meus visitantes diários anunciados pelas estatísticas do veículo, só pra dizer que toda essa agonia, no entanto, não seria barreira que me sustentasse diante do sujeito que vem no vídeo a seguir, já várias vezes citado aqui no blog como estando entre os meus autores preferidos e não apenas pela beleza da sua composição, mas por seu privilegiado olhar sobre a Humanidade e a História. Com este (tamanho fascínio exerce sobre mim), se eu cruzasse na praça, faria igualzinho aos jovens que o cercam no vídeo, tentando inclusive encontro para o dia seguinte, a vida restante...
Ceronha Pontes
01 de junlo de 2012
sexta-feira, 29 de junho de 2012
O "baile"
Chorando o sangue, digo, o leite derramado, Laura? Não conte com a minha compaixão. Tou mais é rindo da tua cara, minha nêga. Cantei a bola, não cantei? Ouviste? O cacete. Agora qualquer importância dada à minha lucidez é demasiado tarde. Também não vale transferir a responsabilidade pro destino, ou serei obrigada a te esfregar na cara uma de ti, nem tão longe, entupida de certezazinhas, arrotando a sua banca. Comigo é que nunca colou. Se fazendo de coitada, dando uma de doida que não viu aonde é que aquilo tudo ia dar? Sendo bem honesta consigo, já que eu saquei faz é tempo, diz aí pro teu arrependimento se a escolha teve outro fundamento que não o teu pavor paralisante disfarçado de "fôda-se"? Pois agora fudeu foi de vera, minha filha. E a senhora, que podia ter feito o mínimo esforço, vai ter que chupar essa manga, é o que eu tenho pra te dizer e ainda te digo outra: te apodera do caminho, que o pra trás já era, não é mais. Em frente, sujeita! Enfrente. Vai fazer o quê? Pedir clemência? Sou das tais que prefere aplicar a penitência.Vai encarar? Oxe!
Ceronha Pontes
29 de junho de 2012
P.S.: "Baile", do pernambuquês, corresponde a "dar um carão", em cearês.
Extra:
quinta-feira, 28 de junho de 2012
A febre de Lucian
Por olhares distintos, é verdade, mas, assim como à personagem (Luiza, de Essa febre que não passa), também a mim afetam as criaturas de Lucian Freud.
Ceronha Pontes
Recife-PE, 28 de junho de 2012
quarta-feira, 27 de junho de 2012
"Cipó que nos enrosque"
Dércio se mandou. Foi poetar, cantarolar, dedilhar, plantar ipês por aí. Deixa o seu rastro iluminado, caminho perfumado pra gente seguir cantando.
Ceronha Pontes
Recife-PE, 27 de junho de 2012
sábado, 23 de junho de 2012
Que venham os girassóis
Em Londrina, com ESSA FEBRE QUE NÃO PASSA, no Teatro Vila Rica, às 20h de hoje e amanhã. Duas vezes no Paraná em curto espaço de tempo, recordando o frio de quando vivi por aqui, um tanto mais pro oeste, numa Foz.
Queria mesmo era dormir. Socorro. Ou a pilulinha que a Lili me ofereceu tava vencida, ou não tem bomba que derrube espírito avariado.
Entre as doçuras que atuam, garantido que o espetáculo aconteça à revelia de meu humor agonizante, dividir o quarto de hotel com uma bailarina linda e alto astral, e esta canção bonita que deixo pra vocês. Porque de fato, "mais um santo pra esculpir é o que lhe/me/nos vale, pra evitar que o rancor suas ervas espalhe".
Ceronha Bisonha
Londrina-PR, 23 de junho de 2012
domingo, 10 de junho de 2012
Longe
Acostumou-se a perder. Pareceu-lhe sempre natural. Nunca esperneou quando partiram os amores, quando lhe esnobou o trabalho, quando lhe faltou a grana, quando passou por ridícula, por incapaz, por acomodada (ai, que "acomodada" lhe doía mais que tudo, mas, nem assim...), por inútil. Deixou que julgassem mal suas escolhas e dons. Foi indo assim, quase achando legal a sua sina marginal.
Até que lhe roubaram o Futuro, de um jeito que ela não me permite contar porque tem vergonha do quanto facilitou. Sente-se uma besta. Fosse apenas não ter resistido, mas, não. Entregou. Nem por preguiça da luta, e sim por nunca entender nem sentir gosto bom naquilo que, sendo seu por direito, tivesse de ferir para ter. Como? Por todos os deuses do Olimpo, não creiam que fale de "coisas". "Coisas" nunca foi o que lhe moveu na vida. Por estas, tanto mais empacada.
O Futuro...
E já era tarde quando sacou sua natureza desperdiçada, sem mais tempo de resgate ou reconstrução. Aí levantou-se com uma fúria que desconhecia. Foi assustador vê-la sem esperanças.Tentei acalmá-la aplicando todo o meu repertório de clichês para consolo, mas, apesar de fracassada (que ela não me ouça), é inteligente o bastante para não acreditar em mim. Então me calo. Deixo que se faça mal. Nunca viu graça em fazê-lo a outrem, de modo que gastará sua ânsia praticando contra si e nada posso para dissuadi-la. Cumpra-se.
Antes de me retirar, no entanto, ponho pra tocar baixinho um Caetano Veloso. Cara, ela não curte o Caetano. Diz que quando ele dá entrevistas parece demais com um ex-namorado que é a falácia em pessoa. Mas certa vez, ouvindo... o quê, mesmo? Talvez fosse Trem das Cores. Era isso, sim. Gosta daquele verso: "azul que pura memória de algum lugar". Então ouvíamos Trem das Cores e ela disse bem assim: "a esse cara, bastasse o canto".
Então arrisco a bola fora, sendo que pior já não fica.
Ceronha Pontes
Recife, 10 de junho de 2012
quarta-feira, 6 de junho de 2012
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Não há passado pra onde ela quisesse voltar.
Ceronha Pontes
Forteleza-Ce, 06 de junho de 2012
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