quarta-feira, 27 de junho de 2012
"Cipó que nos enrosque"
Dércio se mandou. Foi poetar, cantarolar, dedilhar, plantar ipês por aí. Deixa o seu rastro iluminado, caminho perfumado pra gente seguir cantando.
Ceronha Pontes
Recife-PE, 27 de junho de 2012
sábado, 23 de junho de 2012
Que venham os girassóis
Em Londrina, com ESSA FEBRE QUE NÃO PASSA, no Teatro Vila Rica, às 20h de hoje e amanhã. Duas vezes no Paraná em curto espaço de tempo, recordando o frio de quando vivi por aqui, um tanto mais pro oeste, numa Foz.
Queria mesmo era dormir. Socorro. Ou a pilulinha que a Lili me ofereceu tava vencida, ou não tem bomba que derrube espírito avariado.
Entre as doçuras que atuam, garantido que o espetáculo aconteça à revelia de meu humor agonizante, dividir o quarto de hotel com uma bailarina linda e alto astral, e esta canção bonita que deixo pra vocês. Porque de fato, "mais um santo pra esculpir é o que lhe/me/nos vale, pra evitar que o rancor suas ervas espalhe".
Ceronha Bisonha
Londrina-PR, 23 de junho de 2012
domingo, 10 de junho de 2012
Longe
Acostumou-se a perder. Pareceu-lhe sempre natural. Nunca esperneou quando partiram os amores, quando lhe esnobou o trabalho, quando lhe faltou a grana, quando passou por ridícula, por incapaz, por acomodada (ai, que "acomodada" lhe doía mais que tudo, mas, nem assim...), por inútil. Deixou que julgassem mal suas escolhas e dons. Foi indo assim, quase achando legal a sua sina marginal.
Até que lhe roubaram o Futuro, de um jeito que ela não me permite contar porque tem vergonha do quanto facilitou. Sente-se uma besta. Fosse apenas não ter resistido, mas, não. Entregou. Nem por preguiça da luta, e sim por nunca entender nem sentir gosto bom naquilo que, sendo seu por direito, tivesse de ferir para ter. Como? Por todos os deuses do Olimpo, não creiam que fale de "coisas". "Coisas" nunca foi o que lhe moveu na vida. Por estas, tanto mais empacada.
O Futuro...
E já era tarde quando sacou sua natureza desperdiçada, sem mais tempo de resgate ou reconstrução. Aí levantou-se com uma fúria que desconhecia. Foi assustador vê-la sem esperanças.Tentei acalmá-la aplicando todo o meu repertório de clichês para consolo, mas, apesar de fracassada (que ela não me ouça), é inteligente o bastante para não acreditar em mim. Então me calo. Deixo que se faça mal. Nunca viu graça em fazê-lo a outrem, de modo que gastará sua ânsia praticando contra si e nada posso para dissuadi-la. Cumpra-se.
Antes de me retirar, no entanto, ponho pra tocar baixinho um Caetano Veloso. Cara, ela não curte o Caetano. Diz que quando ele dá entrevistas parece demais com um ex-namorado que é a falácia em pessoa. Mas certa vez, ouvindo... o quê, mesmo? Talvez fosse Trem das Cores. Era isso, sim. Gosta daquele verso: "azul que pura memória de algum lugar". Então ouvíamos Trem das Cores e ela disse bem assim: "a esse cara, bastasse o canto".
Então arrisco a bola fora, sendo que pior já não fica.
Ceronha Pontes
Recife, 10 de junho de 2012
quarta-feira, 6 de junho de 2012
.....................
Não há passado pra onde ela quisesse voltar.
Ceronha Pontes
Forteleza-Ce, 06 de junho de 2012
segunda-feira, 7 de maio de 2012
A viagem (parte II)
Nem cheguei e a Vovó já partiu. A prima Eda me fez a maior inveja contando que, em companhia da Tia Zelinda, lhe pôs bonita dentro da última roupa.
Meu corpo é dormente. Padece de tristeza funda. Mas a alma salta, menina, em torno das melhores lembranças que se pode ter de uma avó. Inteligente, veloz no raciocínio, divertidíssima nas suas considerações.
Somos mais de 60, entre netos, bisnetos e tataranetos. Minha sobrinha Ana Luiza ficou ao lado do seu corpo miúdo, que demorou a deixar o conforto da velha cama por aquele troço lá, que nos aguarda a todos. Achei bonito isso. A Pequena se sabe amada e defendida pela Bisa e ainda tem a oportunidade de uma despedida sem rodeios, nem melindres. A morte faz parte. Aprenda-se. Preservando-se doce.
Ceronha Pontes (Cecé)
07 de maio de 2012.
A viagem
Marie arruma a mochila ensaiando:"três beijos por uma colherinha de sopa quentinha". Chantagens do amor. Pretende.
Qualquer roupa e sapato.
Depois, cuidadosamente escolhidos, dois amigos bons que lhe acompanhem neste passeio estranho (lhe falta palavra que o classifique de fato): Carlos¹ e Clarice².
Por último resolve inaugurar finalmente aquele bloquinho novo de papel reciclado, costa de arame, capa dura, com uma arte bem bonita mesmo. Guardava pra uma ocasião importante. Agora segue estrada longa, visitar a Nonna.
Ceronha Pontes
Recife-Pe, 07 de maio de 2012
¹ Drummond de Andrade
² Lispector
P.S.: Ele decide ir junto. Um Príncipe, ela o sabe.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Vícios
Sujo- Puta merda, acostumados com "tu visse?", "tu fosse?", "tu soubesse?", quando precisam falar direito vocês confundem. Me mandaram um "tu dissesteS" que fodeu com o pretérito perfeito do indicativo.
Mal Lavado- Ô boquinha porca, pior é na tua terra, que eu tenho que ficar ouvindo "o pessoal FORAM".
(Qüen, qüen, qüen, qüen.)
Ceronha Pontes
Recife,-Pe, 04 de maio de 2012
quinta-feira, 3 de maio de 2012
O presente
João- Maria, hoje é despedia do Osvaldo, queria levar um livro de presente.
Maria- Tipo o quê?
João- História (?).
Maria- As veias abertas da América Latina.¹
João- Sei não...
Maria- Eu não sou cachorro não.²
João- Sei lá...
(Pausa.)
João- Autoperfeição com Hatha Yoga³.
Maria- Hã?
João- Ele já era policial na Ditadura Militar.
Maria- Ah.
Ceronha Pontes
Recife-Pe, 04 de maio de 2012
¹ De Eduardo Galeano, uma análise histórica da América Latina desde a sua colonização. Uma curiosidade é que o livro foi proibido nos países que sofreram golpe militar, incluindo o Brasil.
² Paulo César de Araújo situa a magnífica música brega brasileira no período da Ditadura. Desde então Maria tornou-se fã ardorosa de Odair José e outros bambas.
³ De autoria do Professor Hermógenes, é "bíblia" para os praticantes de Yoga (inclua-se João). Trata também de reeducação alimentar, relaxamento e atitude mental. Uma curiosidade? Bem, o presenteado já era da Polícia no tempo da Ditadura.
Tudo a ver:
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Ação física machuca
Ontem Eros me flagrou no espelho do banheiro ensaiando um cabelo Joãozinho.
- Você fica linda, já te disse.
Hoje, no café da manhã, ainda animado com a possibilidade, provocou:
- E aí, vai "raspar" quando?
- Só quando montar o próximo espetáculo.
Mudou radicalmente o seu semblante. Tristeza, decepção, raiva, medo...
- Que cara é essa?
- Então cortar o cabelo é só o começo de uma série de mutilações.
Mutilar-me até que a "cria" encontre passagem. Que imagem tão forte ele me dá. E, no trabalho futuro em questão, bem ao pé da letra, me lembra.
-Você não terá pudores de arrebentar os seios, o ventre.
- É tudo "ação física"*.
- "Ação física" machuca.
Assustei-me. Queria ter coragem de cortar Joãozinho agora, sem relação com nada nem ninguém que não seja eu mesma.
Ceronha Pontes
Recife-Pe, 02 de maio de 2012
*Referindo-me ao método.
terça-feira, 1 de maio de 2012
Mamma
(Com a Pequena, ao telefone.)
- E sua Avó, será que gostaria de falar comigo?
- Claro, né, Titia? Ô Vóóóóó!!!! (Tempo) Tia, eu tinha me esquecido que ela saiu. Foi ...pra casa... da... Tia Margarida.
(Um mês depois.)
- E hoje, sua Avó falaria comigo?
- Ô Tia, a senhora tem cada uma... Ela não pode. Tá doente, de cama e recebendo visita.
(E a pausa vai-se alongando.)
Ceronha Bisonha
Recife-PE
01 de maio de 2012
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