quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O Pai, a Mãe, os irmãos.



Quanta diferença comporta o mesmo sangue, meu Deus! O mesmo nome. O mesmo Pai. 
Quero escrever que foi de repente, mas ela intervém com sua lucidez e franqueza constrangedoras, afirmando que era tragédia anunciada. Concordo. Não foi de repente mas, de uma vez, as vilezas todas à sua percepção. Não por gosto. Lhe enfiaram feito fosse milho em goela de peru engordado na marra pro Natal que não tarda. E de fato sempre odiou esta e outras datas que obriguem à farsa coletiva. Farsa, escrevo, e me pergunto se não é preconceito seu. Ah, que ainda me mata esta necessidade do politicamente correto! 
Ei, mas porque diabos a festa de Natal entrou na conversa? Seja lá,  também não temos porque recusá-la em território de tão livre e arriscada expressão.
Na casa nunca uma árvore enfeitada, nem visita de Papai Noel (não acreditam), nem ceia. Alguma prece. Em geral ela chora nesse dia e  já desistiu faz tempo de tentar entender. Passa o ano planejando a fuga (porque afinal agregou-se a outras famílias). Nos últimos não conseguiu escapar e foi tudo absolutamente chato.
Vamos admitir que o tema se impôs porque lá muito no fundo lhe perturbará eterna dúvida: e se a sua tivesse sido uma família comum? Muito longe dela sugerir que "incomum" seja especial, acima ou abaixo de qualquer estabelecida média. É que não praticaram Natais, aniversários, bodas, feijoadas de domingo. Encontro algum que lhes pusesse frente a frente, reconhecendo sina comum. Caso estejam pensando que o dia-a-dia devia lhes bastar, devo esclarecer que também não tiveram dia-a-dia, posto que nasceram distantes uns dos outros nos anos e, por necessidade, saíam de casa muito cedo, cada um pra um lado, estudar na capital. Assim, quando vinha um, o outro já se escafedera. Absolutamente estranhos. Ela, particularmente, tem verdadeiro horror da impressão que os outros construíram a respeito seu e de suas escolhas, pois se enganam até quando olham com boa vontade.
Ali, o pai atraía todos os olhares, só raramente desviados para as artes da Mãe. E ele não fazia por mal. Quem pode com a natureza? Tem gente que simplesmente "chupa luz". Adora essa expressão, bem comum no ambiente em que trabalha. Pois bem, na casa, o Pai reluzia mais que tudo, relegando involuntariamente os outros à invisibilidade. E o fato é que, quando foram obrigados a se olhar, o espetáculo era (é) lamentável. 
Ela peleja buscando no Velho referência primeira na investigação daquilo que os impede (apesar das diferenças assombrosas) a quebra definitiva dos vínculos. Por quê na veia de um o sangue corre assim e na de outro corre podre? Por Santo Anastácio, sirva o famigerado sangue para explicar ou aliviar! Há coisas envolvidas que escapam aos julgamentos oficiais, sentenças, etc. São coisas suas, só suas, por menos que queiram assumi-las. E o melhor jeito de conduzi-las terão de descobrir entre si. Ninguém de fora os SALVARÁ (mal posso acreditar que ela me permitiu este verbo). Ainda sobre o sangue, sobre o bem e o mal, eu não sei explicar a relação do veneno com a vacina (ou antídoto?), mas acho a metáfora libertadora, sei que me entendem. E ela há de concordar, nem que seja por preferir cobras e escorpiões a perus de Natal. 
Os campos já estiveram carregados de cores e aromas. Se tudo murchou, não importa, a vida se renova. É sempre tempo de semeadura. 
Puxa vida, escrevo isto com a melhor das intenções e ela... 
Gosta de liberdade mas é toda trabalhada na censura. Tem aversão a mensagens assim, positivas. MESMO QUANDO PRECISA TANTO ACREDITAR.
Quer saber? FÔDA-SE! Não é você que adora um palavrão? Pois pegue estas mal traçadas linhas e meta... Meta lá... meta lá no seu... Furico, eu digo, com um esforço que lhe faz perder o fôlego. Gosto  que ria assim. Rio com ela.


Ceronha Pontes
Recife-Pe, 20 de outubro de 2011


P.S.: De fato ela não crê (nem eu e nem você, admita) que estejam protegidas do mal as famílias comuns. Com todo respeito pelas suas festas natalinas. Desde que não a convidem, é claro. E isto é uma súplica.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

pimenta no alheio



Há muito não me dói o cotovelo. Muito mesmo. Aquilo é que era ser feliz! Perdoem-me os que por ventura(?) estejam em plena consumição desta natureza. Não tomem como deboche. Acho-lhes bonita a disposição e tenho inveja da poesia que sua agonia inspira. Justamente procurando uma dor que eu preferisse a esta que ora sinto, pareceu-me, amor não correspondido, a visão do paraíso.


Ceronha Pontes
Recife-Pe, 17 de outubro de 2011

P.S.: Vai dizer que isto não é bonito pra cacete?

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

DESVANECIDA



Desde que me lembro Marie já era uma viciada em bloquinhos de papel. Eu mesma lhe presenteei com alguns de capa dura, os seus preferidos. Carece ver-se de longe e nada mais ilustrativo, nesse sentido, que sua própria e apressada letra arrastando-a para fora das linhas.
Hoje cometi a indiscrição de invadir um desses seus "refúgios". Muitas páginas arrancadas, possivelmente rasgadas, protegidas da curiosidade de "estranhos". Não deixa de ser triste, pois é como a própria Marie se desintegrando. Nas que sobraram (de propósito, creio), sugestões de como adoçar a vida. Estou mais vermelha que a cereja do bolo, envergonhada por perseguir-lhe o mistério, insistindo ainda em adivinhá-la na receita do Tiramissu. Porque Marie, ah!, Marie combina o improvável. Exatamente como misturar café com ovo cru e cream cheese.


Ceronha Pontes
Recife-Pe, 14 de outubro de 2011


P.S.: E ainda umas raspas de limão.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

LENTIDÃO



Julieta sofre de disciplina cancerígena. É. Tanto rigor favorece o surgimento desses mondrongos malignos.
E se ela se mata vagarosa e assídua sem que ninguém se dê conta? Me ocorreu agorinha a possibilidade do engenho. Ser, estar, cumprir a tempo e espaço justamente adequados e, por tão discreta expressão, inascessível socorro.
Partir-se. Na hora que estabeleça, sem milésimo de segundo de diferença. Exata. 
Hei de devolvê-la à perdição. Distraída do próprio mal, dance como naqueles tempos que eu fico "grog" só de lembrar. 




Ceronha Pontes
Recife-Pe, 12 de outubro de 2011


P.S. Entre as coisas que nos moviam:

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Isto cura?



Oh, amargo Blog, feinho feito os dias estão, eis um pouco de Céu entre os cães.
C.

domingo, 9 de outubro de 2011

Os bárbaros


Frustradas as "comemorações" pela chegada, enfim, ao fundo do poço. Ah, decepção! Eis que, em pleno domingo (quando foi mesmo que até Aquele descansou?), surge mais um bicho escavador, reinstaurando o assombro.
Sugere-se diplomacia no trato com o animal, o que seria menos difícil, não fosse a galera da pirotecnia, que não se satisfaz com o minimalismo adotado pelos "donos da trama".
De um lado, a ignorância empata uma melhor solução para o conflito. Do outro, uma gente em quem a vida não doeu o bastante, se enxerindo em decidir destinos.
Entre o bicho que pega e o que come, salva-me Drummond, com seus ombros largos, sustentando mundos.

"Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação."

Assim seja.

Ceronha Pontes
De Joâo Pessoa-PB, 09 de outubro de 2011

P.S.: Qualquer hora saio das entrelinhas e haja ventilador pra tanta merda.

sábado, 8 de outubro de 2011

Como reconhecer um príncipe


Ao Eros

Um príncipe é aquele que chega quando tu estás por um triz, a um passo de ser engolida pelo vulcão. Então ele te estende a mão com a serenidade dos justos. Dos justos, eu disse, e não dos profissionais da Justiça. Quando te põe à salvo, te fala verdades com bom humor infalível, ri de teu cabelo metade vermelho, metade sei lá, te livrando um pouco da seriedade habitual com que tu te enxergas. Um príncipe impede que teu ódio cresça e tu te tornes um alvo fácil para o inimigo. Com um príncipe do lado, não é difícil reconhecer naquele que te ameaça, um bicho fraco, destituído dos valores que te fazem forte e, portanto, muito mais digno de tua compaixão que de tua fúria. Um príncipe te "rouba" um instante da dura realidade em que te encontras, te leva ao cinema para ver Capitães da Areia e segura forte a tua mão, sem se importar com o fato de que ali tu choras apaixonada por outro, o Pedro Bala, como quando adolescente, devorando Amado.
Depois de tudo, recobradas as tuas energias, não serás capaz de usar as mesmas armas daqueles que te fazem sofrer, pelo simples e determinante fato de que, para ti, os fins jamais justificarão os meios, e tens a companhia de um príncipe, à procura dos caminhos certos, com a consciência inabalável. Para completar, um príncipe de verdade te faz acreditar tanto em ti mesma, que até poderias seguir sem ele.

Ceronha Pontes
De João Pessoa-PB, 08 de outubro de 2011

P.S.: Tava aqui pensando com meu lamentável preconceito, que não dá pra confiar em meninas que não se apaixonaram pelo Pedro Bala.





sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Adiamento indesejado


Queridos amigos, é com muito pesar que comunicamos o adiamento da estréia de CAMILLE CLAUDEL, que deveria acontecer na cidade do Recife, no próximo dia 07 de outubro, no ANGU (sede do Coletivo Angu de Teatro).
O espetáculo já era conhecido do público pernambucano por sua participação no Festival Recife do Teatro Nacional em 2006, quando foi apresentado no Teatro Hermilo Borba Filho, palco preferido de muitos artistas de teatro daquele lugar, entre os quais ouso me icluir, pois mesmo quando atuava em Fortaleza, já conhecia a maravilha de espaço que é o Hermilo. Desta vez,  no entanto, e com a mesma e tamanha vontade, seria o momento de apresentá-lo num espaço alternativo, constituido por uma área aberta com jardins e corredores, terminando por acolher o público no antigo ateliê de Xuruca Pacheco. Sem contar as lembranças que os recifences guardam da Casa de Bamba que ali funcionava. Por tudo isso acreditávamos que seria ambiente especialmente favorável a esta experiência.
A vida real se impôs de modo a esticar minha temporada em Tamboril-Ce, minha cidade natal, e não há como retornar ao Recife a tempo de nos encontrarmos com esta Camille (vivida  através de minhas limitações, é claro, mas também de minha profunda admiração por sua obra e pessoa) na data prevista. Juntos, vocês e eu, reunidos em torno deste "tema", acredito realmente que pudéssemos fazer crescer o clamor daquela artista dotada de extraordinário talento, mas que, para nossa indignação, teve sua vida arruinada e sua obra por muito tempo esquecida. 
A Tear Companhia de Teatro(Fortaleza-Ce), onde nasceu este trabalho, desde que eu ali pesquisava, inclinou-se sempre para o tema da opressão. Como explicar essa necessidade de abafar, destriur, banir aqueles que, por algum atrevivento da natureza, vieram selvagens, rebeldes, vibrantes, dotados de uma força criativa absolutamente imprevisível? Sobretudo (quanto a Camille), como explicar a violência com que a mediocridade se lança sobre um espírito livre e revolucionário que ousa instalar-se num corpo de mulher?
Incapaz de me calar a respeito, ofereci minha humilde carne através de algum talento para a arte de repesentar, a este exercício e missão, que gostaria tanto de partilhar com vocês a partir deste 07 de outubro. O impedimento que ora se impõe não deverá nos afastar por muito mais tempo. Nem eu sobreviveria a isto. Tão logo possa "voltar para casa" (e depois dos últimos acontecimentos Recife se afirma cada vez mais como tal), nos encontramos. Senão no ANGU, em algum outro lugar e data que informarei aqui e na página do facebook, além dos outros meios de comunicação menos íntimos, mas, de praxe e eficiência.
Vamos conversando.
Abraço vocês com o carinho de sempre.

Ceronha Pontes
De Tamboril-Ce, 30 de setembro de 2011

P.S.: Depois de perder meu tão adiado e desejado curso com Maurice Durozier (Théâtre du Soleil), a visita de Sebastião Milaré ao nosso Coletivo Angu, adiar Camille, sem contar os outros imensuráveis danos, gostaria muito de ter pra quem enviar a conta.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Sobre não morrer

Para Luce Pereira

Querida Lucille,

Hoje Ela cantou. Pareceu-me que não se dava conta de que o fazia, mas, cantava, e isto me trouxe a esperança que ora divido contigo. Depois começou a recitar aquele teu "Um tango com Frida Kahlo", experimentando involuntariamente um gestual que diz mais da outra Criatura. Confuso assim: a fala de uma no corpo da outra. Em tudo, Ela.
Tanto a do Tango quanto a francesa, apartadas de seus dons, desfalecendo em ambiente desfavorável. Vê-se assim.
Bem quando vomitava aquilo sobre "que dissolvessem com golpes firmes o (seu) meu delírio pelos...", acordou. E chorou. Não, querida, talvez não fosse apenas desesperança. Eu mesma me lembrei de um teu choro bom, quando daquela que consideraste a melhor exibição do Tango. As condições do teatro naquela cidade em que Ela sempre odeia se apresentar eram tão ruins que Ela chutou o balde, como gosta de dizer, tentando superar as adversidades entregando-se de um modo que a aproximou tanto daquilo que concebeste, que tu choravas, Lucille, fazendo-a  gabar-se por atingir momentaneamente a compreensão plena da (antes tua) Criatura.  Ela bem sabe (e por isso não se furta de vivê-los) que esses instantes são raros, Lucille, porque milagrosos. O lugar em que Ela está agora se encontra tão completamente arruinado, que só por milagre mesmo se levantará, Ela crê. Tenho vontade de dizer a Ela sobre os benefícios do tempo, mas, é melhor esperar o tempo certo de fazê-lo.
Não sabe ainda como ser mais forte do que alguma vez. Porque agora não é artifício, querida, e Ela dói a ponto de não reconhecer os recursos para lidar com tragédia tão real. Sente e pensa as coisas mais feias. Deixemos. Precisa.
Entre vingados e fodidos, figura entre estes últimos, e não há outras classificações para os envolvidos em tão dolorosa questão. Fodidos. Ela gosta de palavras baixas. Eu também. Digamos. Preciso.
Mas, Lucille, o real motivo desta carta (escrevo com aquela caneta que touxeste de Nova Iorque e deste a ela quando trocavam contos "galeânicos " por fantásticos, e lamento que chegue a ti em letra impessoal e fria) é que hoje Ela cantou. A voz era triste, a música nem sei, mas, não importa. Cantar não te parece um bom sinal? Sempre lembro do cara do Pavão Mysteriozo dizendo que isto parece com não morrer. Creio absolutamente e sei o que vai em ti, a respeito. Por isto o comunicado: ELA CANTOU.
Abraço meu. E dela. Se pudesse.

Charlotte.

P.S.: E eu que pensava que não apareceria por aqui tão cedo. Me diga, Lucille, como imaginas o cenário, quando é Charlotte quem se revela a mais lúcida? (Risos.)

Por Ceronha Pontes
De Tamboril-Ce, 28 de Setembro de 2011.

sábado, 24 de setembro de 2011

As coisas feias


Neste momento Mariana vê o mundo mais perverso do que alguma vez. Dói de dor de morte, sendo que a lembrança desta nem lhe parece tão feia se comparada a, mas, na falta do que se aproxime...
Esperam de Mariana um ato heróico incompatível com a sua condição de rato. Talvez porque pareça um leão, pobrezinha. Impotência e, pior, um medo intransponível ela experimenta sem conseguir ser amparo o bastante para Marianona e Marianinha. 
Um tio lhe falou sobre noites mais longas que o fim do mundo. Os dias também, ela pensa. Aonde se cumpre o fim comprido do mundo? Será que lá se acaba este padecimento?

Ceronha Pontes
De Tamboril-Ce, 24 de setembro de 2011