sexta-feira, 16 de abril de 2010
FEIJÃO E LENDAS, especialmente dedicado aos tamborilenses.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Abominável encantamento!

(Ceronha Pontes em foto de Velma Zehd)
“O que se sente? O que se vê? Coisas maravilhosas, não é? Espetáculos extraordinários? É muito bonito? Muito terrível? Muito perigoso?”
(O poema do haxixe, Charles Baudelaire)
Recuperando motivações, reelaborando a cena, potencializando o gestual, a musicalidade, buscando incansavelmente o frescor. Exercício que perpassa emoções diversas. Oscilo. Vacilo. Num mesmo ensaio tanto me dou por segura quanto por vencida. Não me economizo nas alegrias e inevitáveis dores deste nosso ofício. Ao teatro, TUDO! É feito amar.
Poeta inglês que viveu entre 1785 e 1859, De Quincey me acompanha há dez anos. Sua obra (e de Baudelaire), sua história, vício e ternura, suas agruras, ironia, inteligência, sabedoria, sua força e grande sensibilidade me ensinaram muito. Com ele (ou eles) vou acrescentando ao meu viver e "teatrar". E tudo começou quando, identificada com o corajoso e contundente discurso de Charles, isento de qualquer moralismo ao tratar do consumo de substâncias entorpecentes, me encantei especialmente com a parte dedicada ao ópio, por revelar impressionante conflito de genial poeta (Quincey) que experimenta, pela ação do ópio, a expansão de sua mente brilhante em detrimento de seu corpo, até chegar a um ponto em que um já não serve de morada ou expressão para o outro.
“Horrível situação! Ter a mente fervilhando de idéias e não poder mais atravessar a ponte que separa os campos imaginários do devaneio, das colheitas positivas da ação! Se aquele que estiver me lendo agora conheceu as necessidades da produção, eu não preciso descrever o desespero de um espírito nobre, clarividente, hábil, em luta contra essa danação de caráter tão particular. Abominável encantamento!” (Charles Baudelaire)
O comovente relato de Quincey (opiômano assumido) ilustrando o pensamento de Charles resultou irresistível para esta alma curiosa da sede humana por extinguir a dor e alcançar a felicidade plena. Além disso, o interesse estético movido pela beleza da composição de Charles e Thomas. Como construir UM CORPO QUE NÃO COMPORTA A MENTE? Isto muito atiçava a atriz que vos fala e que depois de dez anos ainda se perturba com o mote. Com exatos dez quilos a mais dentro do mesmíssimo surrado figurino e alguma paciência adquirida, me aplico nesse laboratório “antigo” à procura do que ainda não sei, dos signos que não consegui desvendar ou traduzir, reescrevendo mais uma vez em meu "corpo-cavalo" este poema chamado Thomas De Quincey.
A adaptação do texto “invade” também As Flores do Mal, de Baudelaire, bem como as suas impressões sobre a atuação do haxixe e do vinho no espírito humano, tratando ainda dos Paraísos Artificiais.
Oh, mas não esperem de Charles, Thomas e nem desta abusada que ousa intimidade com eles, acusar imediatamente o ópio. Antes ele encontra em NÓS (nem eu me agüento de tanta pretensão), DEFESA APAIXONADA. Acredito inteiramente que uma discussão respeitável e frutífera acerca de substâncias desta natureza, não pode ignorar-lhes os “benefícios”. A imensa alegria que provoca e o poder que tem de tornar infinitas as possibilidades de criação e de elevar tão alta a capacidade de sonhar, não serão combatidas com a ignorância e melindres de ordem moralista. E fique claro feito água mineral, não estamos entrando aqui (pelo menos não ainda) na atual e complexa questão do narcotráfico. Nos prendemos, e que isto nos acrescente algo de bom, ao drama de De Quincey ao admitir-se inerte, tiranizado pela alegria provocada pela substância que lhe aplacou a dor no estômago e o rendeu pela sucessão de alívios e fertilidade que proporcionou ao seu espírito. Tratamos de seu esforço sobre-humano para livrar-se de tão delicioso quanto perigoso império.
E o que diz a seguir o Baudelaire sobre a sagrada bebida, bem se aplica ao doce veneno da papoula.
“O vinho é semelhante ao homem: nunca saberemos até que ponto podemos prezá-lo ou desprezá-lo, amá-lo e odiá-lo, nem de quantas ações sublimes ou de delitos monstruosos ele é capaz. Não sejamos pois mais cruéis com ele que com nós mesmos, e tratemo-lo como nosso igual.” (Charles Baudelaire)
Evoé!
CERONHA PONTES
Recife-PE, 24 de março de 2010.
sexta-feira, 19 de março de 2010
Brutti, sporchi e cattivi.

segunda-feira, 15 de março de 2010
Amori Fragili

quinta-feira, 11 de março de 2010
SI TU NO ESTÁS...

Hômi, Seu Menino, foi um SUSTO entrar na internet e dar de cara com um passado daqueles que de tão passado ficaria pra sempre na poeira do esquecimento, não fosse um determinado site dar como certa a ressurreição do fantasma. Trata-se de Roy Rossello. Ele mesmo, um dos cinco rapazes mais adorados dos anos oitenta, os porto-riquenhos que compunham o grupo MENUDO. Pois vocês me acreditam que o moço (tá mais pra senhor, já) está morando bem aqui em Salvador? Achou de lançar na Bahia (porque será?) a Banda Parayzo, ao lado de uma cantora loura e popozuda que atende pela alcunha de Valéria Flor do Sereno. Olha que eu fiz o meu esforço, juro a vocês, mas a foto da dupla não deixava dúvida de que minha relação com Roy datou meeeeesmo. Ficou lá no tempo da imagem cuidadosamente escolhida para ilustrar amoroso post, na qual Roy aparece abaixo, à direita.
Fui, confesso, ME-NU-DE-TE. Com direito a possuir desde os discos (vinil, é óbvio) a todas as bugigangas que estampassem as caras de Robby, Roy, Ray, Charlie e Ricky. E este último ainda nem era o Martin, pois alcancei o seu xará antecessor, o Melendez.
[...]
Interrompi a escrita e fui ao youtube buscar clips dos meninos. Que lombra! Adolesci total. Suada não, cão! Affe, da cearensidade da pessoa, dançando e cantando com eles, bora negrada, IEEEEI!
“Não segure muito seus instintos
Porque isso não é natural
Sai do sério, fala alto, dá um grito forte
Quando queira gritar
É saudável, relaxante, recupera
E faz bem a cabeça
Por isso canta, dança, grita, ô ô ô ô.
Não acredito que ainda não reconheceram o hit. Sigam-me os bons.
“Não se reprima,
Não se reprima,
Não se reprima.”
Uhu!!! Quem diria que décadas depois (socorro!) eu fosse executar esta ge-ni-al coreografia com a mesma desenvoltura dos tempos em que o fazia vendo os garotos se apresentarem no programa do Chacrinha? Menino, dançava eu e dançava a Terezinha e mais tudo quanto é menina do redondo planetinha. Pode crer, febre geral, epidemia. Não se Reprima era a expressão da nossa rebeldiazinha furreca. Ô vazio! Mas hoje não tou a fim de papo cabeça, minha gente. Los niños del Menudo trazem dulces recordações que nada tem a ver com o tremor no Chile, massacre na Nigéria, terror no Iraque, corruptos Brasis e outros temas que insultam esta abusada que vos fala.
Menudo traduzia o primeiro olhar, o doce beijo, o brevíssimo amor eterno aborrecente. E é impossível não me reportar a Tamboril-Ce , minha cidade derramada aos pés da Serra das Matas, cenário perfeito para um primeiro namoro cuja excelente qualidade garantiu a exigência aplicada nas escolhas posteriores, com algumas exceções das quais ninguém se livra. É sabido por todo o Tambas e redondezas que o Evandro Francelino (amigo, desculpa a exposição, mas...) era o dono dos meus suspiros ritmados pelas pérolas menudianas.
“Passo os dias sonhando acordado
E de noite eu não posso dormir
Teu amor em meu peito guardado
Eu só quero ficar do teu lado
E na hora de estudar eu só faço me lembrar
Deste sonho tão bonito que vivi
Este amor é a coisa mais linda que já senti.”
KKKKK!!!!! Blogueiros queridos meus, hoje eu tou que é puro clichê e em verdade vos digo: RECORDAR É VIVER.
Na seqüência, como era de se esperar, Menudo pôs-se a me consolar do primeiro pé na bunda. Dramalhão, né? Foi um tal de chorar ouvindo centas vezes seguidas a doce voz de Robby Rosa a suplicar em meu lugar:
“Please be good to me
Don’t let me cry anymore
Hold me like you did before
Just a little means so much.”
Em vão. Oh mundo, digo, Evandro cruel! E tudo entre nós até hoje, sob as bênçãos do Menudo, ficou na base do “quero ser o amigo que está sempre em seu caminho”. E somos. E estamos.
Antes que exploda o ego do meu querido exaustivamente citado, e também pra não abusar da compreensão do digníssimo cônjuge que felizmente não faz a podre linha “bofe ciumento”, devo dizer que o Menudo foi, SOBRETUDO, a trilha de uma necessária despedida da qual jamais me curei. Pois o quinteto estava no auge quando deixei o velho Tambas, verdadeiro protagonista deste post provocado pela aparição de Roy Rossello. Minha terra cuja lembrança ora me adoça, ora me torna um purgante de ser. Mais não conto. Não hoje. É que fui ficando molinha do coração depois que esfriou o suor despendido na dança de Não se Reprima.
Segue o link com o mais afinadinho dos cinco, enquanto me despeço com as faces salgadas por um choro bom.
http://www.youtube.com/watch?v=5c-bsHCM6RI
Desafio meninas com mais de trinta... e cinco a me atirarem a primeira pedra.
CERONHA PONTES
Recife-Pe, 11 de março de 2010.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
AMAVISSE

Hilda Hilst
Sinto não ter habilidades de poeta, coisa que gostaria de ter sido. Adoro o bom poema. A forma enxuta que comporta o ser inteiro.
Como nos últimos dias esta escritora voltou a desfilar com seus cães(prefiro rinocerontes) e vozes de mortos pelos meus pensamentos, povoando a doce solidão descrita no post anterior e promovendo feliz sintonia com o amigo e diretor de teatro Marcondes Lima, espalho uns versos nos quais me reconheço:
"Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada."
(Amavisse/1989, Hilda Hilst)
Me rendo à sua poesia e sua Lori Lamby me tem aos pés.
http://www.youtube.com/watch?v=NHbIroGHS50
Recife, 25 de fevereiro de 2010
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
INSETOS EM VOLTA DA LÂMPADA
mas não ilumina suas minicertezas.
Vive contando dinheiro
e não muda quando é lua cheia.”
(Blues da Piedade, Cazuza.)
Gosto e preciso de solidão. Não me refiro àquela do post anterior, “medonha”, destituída de amor. Um gosto que não exclui meu companheiro amado e melhores amigos do mundo, que são os meus, nem elimina interesse pelos outros (para quê serviria?). Experiência que não aliena ou endurece coração, muito pelo contrário.
Sobretudo, não me refiro a fugas disfarçadas de “preservação da própria liberdade”. Pular de galho em galho, sem aderência. Isto não é próprio dos espíritos livres, nem dos solitários de fé, mas dos viciados em presenças rasas e voláteis, incapazes de carregar alguém no coração, seguir de mãos dadas, porque isto implica responsabilidade. Não confio nos irresponsáveis.
Estar só para experimentar-se, explorar-se corajosamente, na medida em que se transforma. Aprender-se. Gostar-se. Oh, não se trata mesmo de voltar-se para o próprio umbigo. Talvez olhar para o próprio rabo, que sugere um tanto de “semancol”.
Quis dizer desta solidão saudável, enquanto reparo num mundo de relações meio tortas e no sentimento de insatisfação que impera. Rendidos à idéia do consumo, afogamo-nos numa querência sem fim. Tou na maior preguiça deste modelo de ambição. Não tenho ganas de estar sempre em exercício de conquista, não nos moldes propostos. Cada vez mais “abestada” e sem a atitude que o mercado exige, faço um esforço da porra pra não me sentir um fracasso.
Uma luta manter-me encorajada, buscando resultados efetivos no meio da obsolescência, onde tudo ou é descartável, ou não se encaixa. Criaturas soltas, sem liga, sem densidade, sem chão. Até o amor virou artigo de consumo, Seu Menino! Reparem: de um lado, fúria e revolta de não caber no sonho do objeto de desejo. Do outro, frustração de nunca encontrar aquela criatura justamente adequada à sua fantasia. E uma vez conquistado amor já é passado. Desamor. A fila anda, dizem.
Não é aquela inquietação alegre de um raciocínio inteligente para alcançar um bem. É a pior face da insatisfação que move o mundo, aquela que gera mais querência. E cada vez mais aflitos seguimos adquirindo e jogando fora, batendo o pé, gritando,dando murro em ponta de faca e com a cara no muro, sentando o pau, puxando o tapete ou, pior, o gatilho. Querendo, querendo, porque querendo...
Blogueiros queridos meus, não sei quanto a vocês, mas eu tou fora da concorrência. Pode crer.
Muito mais afim de “tomar um banho de chuva, um banho de chuva, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai...”.
Fuuuui.
CERONHA PONTES
Recife, 23 de fevereiro de 2010.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Virando lata...

Ao lado, as estrelas Alícia Pietá, Gisele Almodóvar e Verônica Valentino.
Sou de uma espécie mais mansa da vasta fauna que tem no Centrão de Fortaleza o seu habitat natural. Por onde tenho andado desde que deixei a cidade, não raramente me sinto bicho triste, perdido em selva alheia. O Centro testemunhou minhas transformações, acolheu e zelou por todas que tive tempo de ser ali. Carrego marcas que me levam desde o Lord Hotel, passando pelas praças, cortando caminho por dentro das lojas, descendo a São Paulo, atravessando a Conde D’eu, circulando a Catedral e desembocando num falecido Coração Materno. Por viver ali se entenda mais que estudar, comprar, fazer meu teatrinho. Foi de fato morada minha. E pra caber tanta riqueza de um coração de cidade, isto tinha de ser muito mais que apenas um post pretensioso.
Façamos então um recorte. É noite, estamos na rua detrás daquela tradicional escola religiosa com frente para a Duque de Caxias (acho que hoje é só faculdade). Distribuídas pelas esquinas, emergem as criaturas que mais me atiçaram os sentidos, os nervos, a curiosidade e a imaginação. Tive medo, muitas vezes, de que não me reconhecessem amigável, por isso fazia o jogo do invisível e nunca lhes cumprimentei como gostaria. Indignei-me sempre com reações de desprezo, de zombaria e com a violência física a que estão sujeitos os travestis, atacados pelo macharal apavorado em lidar com os próprios desejos, em nome de uma moral falida ou desse nojento sentimento de superioridade do gênero. E porque o preconceito e intolerância sempre quiseram justificar a violência, que por sua vez gera mais de si, não esperem que as purpurinadas de shortinho explodindo em bunda de silicone sejam exemplos de candura.
“Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo de seu jardim pestilento.” *
De dia vê-se uma ou outra guerreira (posso ouvir as gargalhadas do primo Ed lendo “guerreira”) comprando meio frango assado na churrascaria, enfrentando a reprovação das donas de casa no supermercado próximo à Pça. Coração de Jesus, a mangofa dos taxistas do Parque da Criança. Expostas ao deboche corrosivo dos transeuntes. Eu também ri, mas ri com elas, que batem com força os tamancos no chão, aprumam o rabo e o rebolam no melhor estilo La Büdchen, viram a cara sacudindo a duvidosa escova definitiva (a boa e velha rabissaca) e abrem o seu caminho com a dignidade das feras. Eu vi.
“Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha”.*
Muito do meu feitio, claro que me afeiçoei especialmente a uma que batizamos de Muda. Na verdade tinha a fala comprometida pela surdez. Foi a criatura mais faceira e feliz que já desfilou pelo Centrão. Parecia não lhe pesar aquela condição e o seu estilo foi sempre um soco no meu estômago melindroso. Mas a nossa heroína também tem lá os seus rompantes (o que a torna ainda mais interessante) e já foi vista, mui brava, esmurrando enorme cachorro de raça. O mesmo que em outros momentos sucumbia ao seu cafuné em sessões de caça aos carrapatos. Num fim de tarde, sentados no chão de um terraço insuspeitável, a Muda e o cão, tão comoventemente integrados, que dava vontade de nos juntarmos a eles levando um bolo de fubá, um bule de café fresco e histórias de amor pra contar.
Mesmo morando fora, tive sempre notícias das “meninas”, que nunca atentaram (será que não?)para a janela indiscretíssima dando acesso ao seu incrível fundo de quintal, onde um cotidiano alucinante tanto nos divertia quanto preocupava. Quando meu informante viu a Muda pela última vez, ela estava bem machucada. Depois disso não se sabe o que é feito dela. Trocávamos e-mails fazendo conjecturas. Até que meu parceiro de voyeurismo e eu decidimos otimistas que o fim da história é que ela voltou para o seu interior onde foi acolhida e cuidada pela família. Bem o que gostaríamos que nos acontecesse caso precisássemos retornar a Tamboril em condições semelhantes. Santo Anastácio nos livre de triste sina.
Antes que o papo fique jururu feito domingo no Centrão, me jogo no Cabaré da Dama. Arre égua, que o batidão é babaaado!!!
O referido Cabaré, ao contrário do que muitos podem pensar, não é nenhum estabelecimento nas proximidades da Praça da Estação. De caráter itinerante, ficou perfeito mesmo foi no porão do Theatro José de Alencar. Comandado por Silvero Pereira, o Cabaré é a evolução de Flor de Dama, espetáculo que, a princípio, era apenas mais uma adaptação de Dama da Noite, do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu. Silvero acrescentou ao conto os encantos e desencantos da vida dos travestis. E eu que sempre fui de botar bom reparo nessa gente, fico feliz da vida que meu colega tenha explorado o tema com tanta responsabilidade, coragem, alegria, ética e muito talento. Universo travesti de A a Z. Silvero vai do submundo à sofisticação com as muitas atrações que passam por ali, dentre as quais se destacam Alicia Pietá (Bernardo Vítor) e a Verônica Valentino (Jomar Carramanhos), companheiras inseparáveis da protagonista Gisele Almodóvar (Silvero Pereira). É tanto fuzuê, tanto “bafon”, tanta putaria, que temi não rolasse a transição para o drama que deve necessariamente instaurar-se quando surge finalmente a Flor. Mas o Silvero, ah o Silvero, aquela cobrinha criada, sabe o momento preciso de dar o bote, a rasteira na platéia que agora bem pianinho, entra num outro espetáculo e faz tudo o que sua Dama ordenar.
A cena é a madrugada, o fim do show, o último suspiro do boteco. É embriagarmo-nos com o perfume da fodida flor esquisita, “darkérrima, modernésima, puro simulacro” *, a Dama da Noite, escrotíssimamente lúcida. É sexo, solidão e morte. É acompanharmos a Flor até o seu cafofo, apreciarmos o desmoronar de sua maquiagem até que a ela não seja mais que um profundo cansaço de viver.
“Deixa você passar dos trinta, trinta e cinco, ir chegando nos quarenta e não casar e nem ter esses monstros que eles chamam de filhos, casa própria nem porra nenhuma. Acordar no meio da tarde, de ressaca. Olhar sua cara arrebentada no espelho. Sozinho em casa, sozinho na cidade, sozinho no mundo. Vai doer tanto, menino”. *
O streap tease da Flor. Ela contra si mesma no espelho, liberta enfim o pau estrangulado naquele esconderijo improvável, atola a bunda na bacia sanitária e ali talvez fosse ficar até murchar definitivamente.
Depois de tudo partimos tontos de constrangimento. Creio que nunca mais deixaremos de ouvir lá bem dentro de nós mesmos aquele eco, aquela Flor: “Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado comigo: Um dia encontro.” *
O diabo é quem duvida dessa rapariga!
Já de novo o sol na moleira, infinidade de sons e odores e pressa de chegar não sei aonde.
-O vestidinho da moça da novela por sete e noventa e nove!
-Saindo pastel de carne com caldo de cana.
-Ó a quentinha por um real!
-O quilo é dois e cinqüenta, o quilo!
-Escova inteligente e marroquina em três prestações de não sei quantos...
Ferve o Centrão abrindo passagem para outros bichos.
Com saudade medonha,
CERONHA PONTES
Recife,10 de fevereiro de 2010
*Todas as citações extraídas do conto Dama da Noite, de Caio Fernando Abreu.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Doce cearense
Como nem só de grandes preocupações ou nobres causas se vive, publico no "querido diário" um papo tipo "fuleráje" em pleno café da manhã.
Meu digníssimo cônjuge criou um personagem que, segundo ele mesmo, é a tampa da besteira. E é. "Antôin Sitôin" surge com o sotaque que lhe convém e com tiradas ora para constranger, ora para livrar-se do constrangimento. Hoje, tentando inutilmente disfarçar o flagrante interesse no derrière da Beyoncé, toda rebolativa no noticiário matinal, apelou para um "Antôin" morto de baiano:
-"Ó paí! Quê que essa bionça vai fazer em Salvador? Alguém precisa dizer pra ela senão, com esse alvoroço todinho é capaz dela chegar lá se achando melhor de que Daniela (Mercury), de que aquele menino do ajaiô, aquele...(o Luíz Caldas), ou "mermo" de que os menino de Dona Canô (Caê e Beta)."
Ao que eu respondi com aquele bordão do humorístico televisivo genuinamente cearense : "ai dentro, seu Paulo!"
Aliás, falando em televisão cearense, aqui não temos acesso à programação daquele canalzinho que andou ameaçando a audiência da toda poderosa. Que é feito das Tigresas? Por acaso aquelas jovens continuam usando a bunda para equilibrar os quilos de arroz enquanto o apresentador dá as dicas de promoção do supermercado anunciante? Bizarro! Peraí que de repente o youtube resolve esta "saudade".Volto já...
Voltei morrendo de vergonha, minha gente, conteúdo "adulto" demais para exibir aqui.
Me despeço adaptando o sábio ditado: rapadura é dura , mas é bem docinha.
Fui.
CERONHA PONTES
Recife 05 de fevereiro de 2010.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Estúpida Retórica
"Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
daqueles que velam pela alegria do mundo."
(Podres Poderes, Caetano Veloso.)
A inspiração.
Um esbarrão à toa, assim, ao acaso e chega a primeira informação como um simples e inofensivo arranhão, quase imperceptível, indolor ainda. De repente uma coceirinha no local e, “sem querer”, rasgamos à unha a superfície. Há talvez a opção da sutura. Fechar, esquecer. Curiosa, prefiro incisões, aberturas, sondas, canais. Trilha que leve não sei aonde, mas leve. Fui.
Uma área mais afetada ou comprometida puxa o foco. Fim da caminhada a esmo. É o mote. Guia, dali em diante. À leitura do primeiro relato, o desperdício da última chance de voltar atrás. Lanço-me na armadilha, o emaranhado de fios cujos nós tenho desatado a dentadas (inábil), e nunca me iludi de que seria fácil reconectá-los, reconstituir trajetórias, entender tanta História. Como a Revolução Cultural de Mao interage com o movimento natural das mulheres da China.
Oh, não desistam do papo! Não pretendo entediá-los com bla-blá-blás geográficos, cronológicos e tal. É só a idéia pingando mole em pedra dura e os que tiverem saco, bem-vindos sejam.
O desdobramento.
Uma coisa vai levando a muitas outras. Natural da pesquisa. E vicia. Nosso interesse (da Tear Cia de Teatro) pela condição feminina durante a Revolução Cultural Chinesa já promoveu inusitadas descobertas, reflexões e, inclusive, encontros com homens poderosos, marcantes. Franco (Espanha), Mussolini (Itália), Hitler (Alemanha), Stalin (Rússia), sem contar o seboso do Mao Tsé-tung (China)... Só “menino bom”! Como foi que este mundo tão pequeno suportou abrigar estas “crias do cão” tudo bem dizer ao mesmo tempo?
Felizmente há outros. Quando me refiro ao Dalai Lama e ao Mahatma Gandhi, o faço de um lugar onde a razão, creio, é plena e a visão do real precisa. Digo isto, pois sabemos que a Índia, libertada por este e asilo político daquele, traz muito mais imediatamente ao imaginário ocidental os panos coloridos, mantras e queimação de incenso. Nada contra, mas quem não me conhece que não me confunda. Minha admiração profunda por estes homens se justifica no óbvio mesmo, a grandeza de seus claros e justos ideais, associada aos modos para realizar seu audacioso projeto. E é neste modelo de resistência e subversão onde encontramos as motivações para realizarmos o espetáculo Vermelho Mudo que, ao tratar da luta silenciosa daquelas chinesas por seus filhos torturados, suas filhas estupradas, seus maridos humilhados, pretende refletir sobre o que leva milhões de criaturas humanas a ignorarem a própria força e se deixarem conduzir e manipular por mentes cuja especial e rara inteligência, aplicada em sórdidos interesses de tomada, construção e manutenção de nocivo poder, engasgam a matemática em somas de seis milhões de judeus mortos no Holocausto, e mais de 70 milhões de mortos durante os 27 anos em que Mao esteve no poder, POR EXEMPLO.
Tenho esta incapacidade de ser sucinta. Este era pra ser um breve e alegre post sobre o filminho do último sábado, 30 de janeiro de 2010 quando, por pura coincidência, pois nem desconfiávamos que havia 62 anos de sua morte, a sessão de cinema do doce lar exibiu GANDHI, estrelado e dirigido pelos premiados Sir Ben Kingsley e Richard Attenborough respectivamente. E foi muito reconfortante lembrar que as multidões também são capazes de restaurar sua dignidade, auto-estima e coragem de lutar pelo bom e justo. Capazes de topar a grande e necessária “loucura” de não rebater com fúria as agressões, manter a mente forte e segura em seus propósitos, seguindo com um sujeito pequenininho, magrinho, careca, com uns paninhos amarrados cobrindo as vergonhas e carregado de uma coragem, sagacidade, capacidade de criar estratégias que, PUTA QUE PARIU!!!Tem horas que só um palavrão exprime o que vai de encantamento dentro da gente. A grande alma, o gênio do bem. Muito mais difícil que a opção pelas armas é aderir à NÃO VIOLÊNCIA. E foi possível. Um dia foi. Ainda que depois outras ondas tenham estourado e avançado até os nossos dias pela própria Índia e todos os cantos do mundo, a História já registra que é possível, está escrito que a liberdade de uma nação se deu por esta idéia. Este sim, nunca perdeu a ternura. Me comovo mesmo, e me encorajo.
De novo, não me confundam. Sou dessas criaturas de teatro que confiam, sobretudo, na técnica. Não me interessa o teatro carregado de boas intenções e que não seja capaz de sacudir e embevecer o expectador. Devoção ao Belo. E este é um trabalho que independe das motivações políticas, emocionais, psicológicas, o cacete. Mas confesso, se serve para dizer o que penso, o mundo em que gostaria e viver, aí bicho, é até capaz de eu encontrar algum sentido nisso tudo.
Lá no começo falei do “arranhãozinho” que desperta a inspiração e nos conduz à investigação e criação. Pois bem, segue o link do vídeo que me arranhou a pele tenra dos 17 anos, lá em 1989.
http://www.youtube.com/watch?v=7uVPVf42-Ow
CERONHA PONTES
Recife, 02 de fevereiro de 2010.
